sexta-feira, 1 de março de 2024

Filosofia e Discurso científico (2006)

 A análise do discurso científico certamente pode concorrer para discutir algumas das marcantes diferenças existentes entre ele e outros tipos de discurso como o religioso, o popular, o mítico, o legendário, o ideológico, o político partidário, o propagandista, o publicitário,

1. Importância do tema

    Discorrer e refletir sobre o tema ora escolhido parece importar não apenas para os estudiosos da Filosofia, mas também para quantos lidam com as demais ciências. Os próximos subtítulos indicam razões reveladoras dessa importância.

1.1. Expressão da ciência

    A ciência não se expressa, nem tampouco se esgota apenas no discurso dito científico. Ela pode expressar-se também em objetos e fenômenos, nos quais ela se aplica e que somente se tornam possíveis e reais graças a ela. Exemplificam-nos os motores, entre centenas de outros objetos familiares, presentes no cotidiano da sociedade contemporânea. Para movimentarem elevadores e escadas rolantes, imprimirem rotação a hélices de ventiladores, exautores e liquidificadores, produzirem movimento de vai-e-vem nos pistões dos compressores de ar e bombas hidráulicas, os motores devem obedecer fielmente às leis do Eletromagnetismo, que estabelecem as condições para a desejada transformação da energia elétrica em mecânica. Outros motores não deslocariam motocicletas, automóveis, locomotivas, navios e aviões, se contrariassem os princípios da     Termodinâmica, dos quais derivam as condições para a transformação da energia calorífica na mecânica. A fim de que funcionem bem, os motores, tanto os elétricos quanto os térmicos, precisam adequar-se convenientemente às ciências, sobretudo à Física. Portanto, tornam-se assim expressões materializadas da ciência.
    E o que acontece com motores, tomados no exemplo, aplica-se analogamente a todos os objetos e fenômenos naturais e aos artificiais, criados pelo engenho humano. Em última análise, todos eles existem e funcionam obedecendo a leis naturais. A propósito, vale aqui parodiar o pensamento de Bacon, segundo o qual, a natureza obedece apenas a si mesma e por extensão, àqueles que a ela obedecem. Ninguém consegue imperar a natureza sem a ela submeter-se. Inevitavelmente ela pune que a contraria e violenta. O castigo pode tardar mas não falha. Ela arromba represas que se levantaram em oposição a seus princípios, trocando aqueles da Hidrostática pelos da Hidrodinâmica. Faz ruir edifícios edificados fora das leis da Estática. Nesse sentido, pode-se dizer que objetos e fenômenos são expressões da ciência. Todavia, o discurso científico quando bem feito, bem mais do que objetos e fenômenos, expressa as ciências, aqui entendidas enquanto construções mentais humanas. Com efeito, a rigor, não existe ciência sem conhecimento. Pois, pela força etimológica, ciência identifica-se com conhecimento.¹E para que haja conhecimento, impõe-se que haja um sujeito do conhecimento, alguém para conhecer. E, no caso da ciência aqui tratada, este sujeito, este alguém é o homem, Logo, nos objetos e fenômenos materiais exteriores e alheios à essencialidade humana, não existe propriamente ciência no mundo material terráqueo. Quando, nesses casos, se fala em ciência, o termo deve entender-se em sentido simplesmente figurado, na acepção de metonímia ou sinédoque. Pois tudo aquilo que fora do homem existe de natural, sobre a superfície terráquea, não passa de contingentes objetos da ciência, compreendida enquanto conhecimento, de condições não necessárias e nem suficientes² para o aparecimento dela.
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1. O vocábulo ciência procede diretamente do substantivo latino scientia, ae = ciência em português. Por sua vez, o substantivo latino, sciencia, deriva do verbo, igualmente latino scio, is, scivi, scitum, ire = conhecer, saber. Logo, a palavra ciência equivale a conhecimento.
2. Os filósofos denominam condição necessária aquela que, enquanto permanecer ausente, o objeto ou fenômeno considerado não se manifesta. Por exemplo, os zoólogos consideram a parada cardíaca prolongada como condição necessária para a mortee de um vertebrado. Isso equivale a afirmar que, qualquer que seja a causa mortis do animal, este continuará vivo, ainda que apenas vegetativamente, antes que lhe tenha sobrevindo parada cardíaca definitiva.
    Todavia, a condição necessária pode se encontrar presente na ausência do objeto ou fenômeno considerado. Os avanços atualmente alcançados no campo da Cardiologia permitem supor a possibilidade de um vertebrado sobreviver à parada definitiva do próprio coração, cirurgicamente removido e substituído por coração transplantado ou por bombas protéticas que, à semelhança dos adros e ventrículos, assegurem a pequena e a grande circulação sanguínea.
    De outra parte, os filósofos denominam condição suficiente aquela cuja presença acarreta inevitavelmente a manifestação do objeto ou fenômeno considerado. Por exemplo, colocar uma pessoa presa, despida ou com vestes comuns, sobre o braseiro e envolta pelas ardentes labaredas de grande fogueira, seria condição suficiente para cruel morte desta pessoa. Que o digam verdugos e farricocos da Inquisição e de outros santos tribunais satânicos.
    No entanto, o objeto ou fenômeno considerado pode se manifestar na ausência de uma ou mais condição suficiente. Todos reconhecem, diariamente milhares de pessoas morrem, sem que hajam sido queimadas em fogueiras.