quarta-feira, 19 de novembro de 2008

CLAUSTROFOBIA FUNÉREA

Define-se a claustrofobia como o estado psicopatológico em que o paciente teme angustiantemente os lugares fundos, estreitos e apertados. Opõe-se assim à agorafobia, estado mórbido próprio dos que temem exageradamente os lugares abertos e de vastos espaços. Na claustrofobia funérea, o indivíduo fica freqüentemente acometido pelo medo de vir a ser enterrado vivo. Conheci vários casos de claustrofobia funérea. O tema instigava-me interesse e curiosidade, talvez porque padeça deste distúrbio de ansiedade. Omito obviamente nomes por deontológica questão de respeito às pessoas.
Relatou-me um professor universitário do campus avançado de Sousa caso testemunhado pelos mais antigos da cidade. O cortejo fúnebre seguia lentamente acompanhado pelo sacerdote paramentado de negro e por pequena multidão de familiares, amigos e curiosos. Não era costume na época o emprego de veículos motorizados para transporte do caixão ao cemitério. À entrada da necrópole, o ataúde mexeu-se, sua tampa levantou-se e o suposto defunto dele levantou-se protestando contra aqueles que pretendiam enterrá-lo vivo. Foi o suficiente para que os farricocos baixassem o esquife e fugissem assombrados, provocando espanto nos outros componentes do cortejo.
Em minha infância, entre os telegrafistas da RVC(Rede Viação ferroviária Cearense) destacava-se um tocador de saxofone pela rara habilidade no alfabeto de Morse. Não precisava ver pontos e traços na fita que se desenrolava do carretel. Captava, e com absoluta fidelidade, as mensagens pelo ouvido. O exímio telegrafista costumava solicitar com insistência a amigos e familiares: Quando pensarem que eu morri, tragam da penitenciária o mais temível bandido, emprestem-lhe um punhal e paguem-no para esfaquear todo o meu corpo, para que não seja inumado vivo.
No curso ginasial, tive um colega cujo pai figurou como triste protagonista de sepultamento prematuro. O pai detinha o título de propriedade de uma fazenda nas adjacências da cidade onde morava e para onde costumava ir a cavalo por falta de estrada carroçável. Regressando na penumbra do entardecer das costumeiras viagens, deparou-se com um indivíduo caído de bruços, à sua frente, sobre o solo da vereda. Apeou-se do cavalo para prestar-lhe socorro. E qual não foi sua terrificante surpresa ao perceber que o sujeito usava roupas rigorosamente iguais às que ele mesmo vestia. Voltando-lhe a face e frente para cima foi como perceber a própria imagem especular tridimensional. O sujeito estava frio e morto e era exatamente igual a si mesmo. Tomado de pavor com a aterradora visão alucinatória, montou o cavalo, esporando-o e dando-lhe toda a brida em rumo de casa, onde trêmulo relatou a experiência aos familiares. No dia seguinte, o pai do colega amanheceu morto. Alguns anos depois, ao abrirem a gaveta do túmulo para sepultar outro falecido da família, os coveiros encontraram de bruços, com a caveira olhando para baixo, o esqueleto do pai do colega...
O corpo humano, como qualquer outro de complexo animal multicelular, não morre todo ao mesmo tempo. Após a morte cerebral, muitos órgãos continuam vivos, podendo ser transplantados para conforto de doentes que esperam na fila macabras oportunidades, nas quais a desgraça de uns traz a salvação para outros. Os trabalhadores de empresas funerárias convivem diariamente com fatos demonstrativos de que vida vegetativa continua depois da morte cerebral. O crescimento dos cabelos de barbas e bigodes de cadáveres escanhoados serve para exemplificá-los.

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