O novo nem sempre é superior ao antigo, nem este pior que aquele. A observação conduz a pensar em modismos vigentes em certos meios acadêmicos. Não é o fato de ser mais recente garantia única de que uma publicação seja melhor que outra ou tenha realmente algo de essencial a lhe acrescentar. Alguns exemplos pretendem ilustrar a observação.
Em cursos de Filosofia, a assim denominada Philosophia de Mente parece ascender ao zênite entre intelectuais de araque ou agentes do colonialismo reflexo, conforme os denominou Darcy Ribeiro. Catedráticos e discípulos imaginam trilhar o mau caminho, se prescindem da expressão em colóquios, debates e alocuções. Observe-se, contudo, que a expressão literalmente traduzida levaria ao ridículo, ao qual não resistem nem ditaduras e teorias. No entanto, como diria Quintus Horatius Flaccus(65 ACN-8PCN), Veritatem ridendo dicere quis vetat?(Quem proibiria dizer a verdade sorrindo?) Primeiramente, poder-se-ia assim equacionar a definição: Filosofia de mente = Filosofia demente? Em segundo lugar, se a preposição latina de recebe a tradução provavelmente pretendida pelo autor da expressão, de sobre, a respeito de, redundaria apenas em temas já explorados pela teoria das percepções, em Psicologia, e pela teoria do conhecimento, em Filosofia. Em terceiro lugar, resta demonstrar se, sob o novo rótulo, a tal Philosophia de Mente tem algo realmente de valor a adicionar ao que já se sabe. Em quarto lugar, outra interpretação cabível da Philosophia de Mente levaria a aceitar a mente como o instrumento do estudo. Ora, tal acepção não ultrapassa a mera trivialidade, considerando-se que a mente constitui o instrumento de todos os estudos e ciências. A observação de Horatius também mostra que até as crenças religiosas se abalam com o poder do riso, como no hilariante caso recentemente ocorrido no Conjunto dos Bancários, em João Pessoa. No alto do muro frontal de uma residência, ao lado de um cacho de roxas uvas, se inscrevia: Igreja Celular. Talvez para transmitir a idéia de pequena comunidade, e não de aparelho telefônico. Um gaiato passou a chamá-la Igreja Cedular, para lembrar que a seita vive às expensas de cédulas monetária extorquidas de elevadas taxas da pobreza circundante. Foi o suficiente para que os pastores da seita mandassem imediatamente apagar o título e o cacho de uvas do muro.
Antigamente, para alguém que se debruçava com ardor sobre a leitura de determinado autor ou o estudo de certo tema, dele se dizia: o autor tal ou a teoria qual é seu livro de cabeceira. Hodiernamente passou-se a dizer: fulano de tal está sentado sobre determinado autor ou teoria. Ora, ao que tudo indica, não é por polpudas nádegas ou pelo cego traseiro que os conhecimentos penetram na mente. Logo, é a forma antiga de se expressar que corresponde mais à realidade, sendo menos chula e grosseira. Nenhum bom mecânico moderno pretende substituir a antiga roda, cuja idade se perde na noite dos tempos, por um quadrado ou triângulo. Ela continua atual e insubstituível em veículos, motores e outros engenhos.
Igualmente, parece não acrescentar substancial coisa ao conhecimento a troca das palavras rádio por uno e aurículas por adros, vocábulos respectivamente empregados para designar o osso mais interno do braço e as cavidades cardíacas superiores aos respectivos ventrículos.
O modismo leva pesquisadores à pretensão de ajustar os fatos encontrados à teoria e ao autor, quando estes não mantêm relações com eles, ao invés de procurarem autores e teorias que a eles mais se adaptem. Doutorando em Educação Popular pretendeu, a ferro e fogo, explicar a literatura de cordel, objeto de sua tese, à luz da filosofia de Habermas, então na crista da moda, quando, ao que consta, o pensador germânico nada produziu sobre os trovadores populares nordestinos.
Todavia, para evitar qualquer preconceito contra o novo e apego irracional ao antigo, vale lembrar que as mudanças e transformações constituem parte integrante do mundo real ou, como dissera Heráclito de Éfeso(540-480 ACN), Tudo corre e nada está parado. Se a realidade muda tanto assim, conforme demonstra a observação direta dos fenômenos naturais, em conseqüência deve mudar o conhecimento da mesma. Logo, o bom intelectual aceita que o conhecimento válido para uma época não o é igualmente para outra e age em coerência. A descoberta de um único fato novo, suficientemente comprovado, basta para invalidar uma teoria, substituindo-a por outra nova, que explique tudo que a outra explicava e também o fato novo por ela não explicado.
Em síntese, quatro casos são possíveis. Primeiramente, tanto o conhecimento antigo quanto o novo são aceitáveis. A erupção do Vesúvio, perto de Nápoles, no ano 70, foi tão real como a erupção do Krakatoa, em 1883, na Indonésia, ocasionando grandes inundações nas vizinhas ilhas de Sumatra e Borneo e até mesmo em Portugal, onde embarcações foram lançadas do mar ao continente. Em segundo lugar, o conhecimento antigo é tão falso como o novo. Os deuses mitológicos em que acreditavam gregos e romanos eram tão irreais quanto as superstições do homem moderno. Em terceiro lugar, o conhecimento antigo era correto e o novo incorreto. O homem do neolítico já sabia que o atrito eleva a temperatura e o utilizava em madeiras secas para produzir o fogo, enquanto muitos, ainda hoje, admitem que o sal de cozinha, colocado sobre chapa quente, afugenta visitas indesejáveis. Em quarto lugar, o conhecimento antigo era falso e o novo correto. Até a alvorada do século XX, gregos e troianos não aceitavam a comunicação à distância, a não ser através de arautos, como Estentor, de que se serviam os reis para proclamar editos. Hoje todos conhecem e usam o telégrafo, o telefone, o celular, a internet, o rádio e a televisão. Portanto, sábio demonstra-se aquele que age sem preferências tendenciosas pelo antigo ou pelo novo.
Boa Tarde Luiz. Tudo bem?
ResponderExcluirSou o Agustín Carvalho. Olha, li esse texto e achei fantástico! Muito bom mesmo. Adoro esses temas e essas abordagens. Parabenizá-lo é pouco. CONTINUE!
att: Agustín Carvalho