quarta-feira, 19 de novembro de 2008

UNIVERSIDADE DE PANCRISOS

Pancrisos impõe-se como país onde dominam o ouro e tudo aquilo que nele possa se converter. Seus habitantes bem sucedidos orgulham-se do substantivo ou adjetivo pátrio, crisófilo, que lhes dá nome. Pois, ali o dinheiro tudo resolve. Compra triunfos e ovações. Vence eleições e campeonatos. Suborna o poder estatal. Torna a justiça seu fiel lacaio. Os desprovidos de amarelo metal, párias da sociedade, recebem o tratamento reservado a criminosos e psicopatas. Os governantes vão gradativamente entregando a posse e gestão dos serviços públicos a particulares endinheirados. Celebram o feito como a privatização globalizante, estágio final e feliz do desenvolvimento social humano. No entanto, ao invés de abolirem impostos e tributos, por serviços que perdem a gratuidade, aumentam-nos depois de cada privatização.
Os crisófilos pensam e agem como se a escola particular fosse a mais excelente forma de educação. Da creche à universidade, abrem nova escola em cada esquina. Algumas universidades do gênero, orgulhosas do título de empresas, possuem imponentes memoriais e museus cuja finalidade maior consiste em glorificar os empresariais fundadores. As paredes revestem-se de fotografias suas em close-up. Objetos por eles utilizados assumem grande importância: a caneta com que um deles assinou o primeiro cheque; o chapéu de feltro com três berloques de outro; o balandrau do reitor; diferentes modelos de diplomas; menções de honra a alunos que pagam as prestações com pontualidade.
Nas universidades de Pancrisos, os alunos terminam rapidamente os cursos e recebem diplomas, desde que paguem as mensalidades sem atraso. Tal rapidez deve-se ao fato de que nelas inexistem greves de professores ou funcionários. Os diretores demonstram rara eficácia em identificar eventuais rebeldes causadores de tais transtornos e de substituí-los por servidores inquestionavelmente dóceis. Aliás, os crisófilos vêem com suspeição as greves e movimentos reivindicatórios em quaisquer outros setores da sociedade. Por outro lado, professores que espantam alunos malandros com ameaças de reprovações estão condenados ao haraquiri compulsório, pois, merece exemplar punição ameaçar quem tem sucesso com dinheiro. Quem demonstra capacidade em obtê-lo, ipso facto, demonstra sabedoria e capacidade de aprender qualquer coisa.
Nas universidades de Pancrisos, os educadores podem se classificar em duas categorias. Na categoria dos cavaleiros encontram-se aqueles que detestam visceralmente ensinar, abominam salas de aula, laboratórios e bibliotecas, fugindo dos alunos. Deleitam-se no dolce far niente de postos de chefia e assessorias donde ditam normas de como se deve ensinar. Envolvem-se na competição e agressividade para ocupação de tais postos. Porém, não há cavaleiros sem cavalos, o que introduz a segunda categoria de educadores. Para estes sobram as aulas e os alunos.
Na segunda categoria, os educadores devem mostrar serviço, fazer algo visível no ensino, pesquisa e extensão, sob pena de terem comprometida a própria carreira acadêmica. No ensino, entendem demonstrar tanto mais profundidade quanto menos os alunos compreendam o assunto ministrado na aula. Na pesquisa, a profundidade se encontra na razão direta da concordância com os autores arvorados à crista da moda. O trabalho assume maior valor se for escrito em língua estrangeira, sobretudo numa que os discentes ignorem. Na extensão, alguns finalizam os trabalhos com o lançamento da própria candidatura a vereador. Se perdem o pleito, o que geralmente acontece, pelo menos ficam alforriados do ensino, da pesquisa e da extensão durante o curto período da campanha. No ensino, pesquisa e extensão, a mensagem subliminar, implícita e mais forte que passam aos alunos exalta e consagra o individualismo e o liberalismo econômico como pedras angulares da sociedade ideal. Pancrisos gerou sua universidade e esta reproduz fielmente Pancrisos.

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