As descobertas e invenções não parecem depender muito de elevados títulos acadêmicos e sim da capacidade criativa, interessada e comprometida com a pesquisa. Os cinco exemplos subseqüentes, sem esgotar a longa série deles, servem para ilustrar a afirmação.
Vital Brazil(1865-1950), natural de Minas Gerais, apenas com diploma de graduação em Medicina, sem ostentar elevados títulos de mestrado, doutorado e pós-doutorado, efetuou pesquisa que ultrapassa, em mérito e importância, as produções da maior parte dos detentores das láureas da pós-graduação. Descobriu o soro antiofídico, cujo extraordinário valor científico completa-se com a aplicação a país onde quase trinta mil pessoas morriam vítimas de picadas de serpentes. Fundou, em São Paulo, o Instituto Butantã para pesquisa e produção de contraveneno contra ataques de animais peçonhentos, o Instituto de Higiene, Soroterapia e Veterinária, em Niterói, e exerceu com proficiência a direção do Instituto de Manguinhos, no Rio de Janeiro.
O médico e sanitarista Osvaldo Cruz(1872-1917), natural de São Luis do Paraitinga em São Paulo, mesmo havendo estagiado no Instituto Pasteur de Paris e na Alemanha, não detinha pomposos títulos de pós-graduação. Contudo, mesmo enfrentando ferrenha oposição obscurantista, conseguiu erradicar a malária, a febre amarela e a peste bubônica no Brasil, em boa parte graças ao decidido apoio de Rodrigues Alves, então presidente do país. No Instituto Fiocruz, construído em arquitetura de castelo mourisco reuniu e orientou dinâmicas equipes de pesquisadores, as criou as famosas brigadas de mata-mosquitos para eliminação de focos domiciliares e outros de vetores de doenças.
Charles Robert Darwin(1809-1882) foi escolarizado, de 1818 a 1825, na Anglican Shrewsbury School, escola confessional de Teologia, de nula ou fraca formação científica, onde não se distinguiu como aluno brilhante. Contudo, continua brilhando em Biologia, na qual descobriu muitas espécies biológicas e formulou a teoria do evolucionismo ainda hoje em vigor.
Thomas Alva Edison(1847-1931) figura indubitavelmente como o maior inventor norte-americano de todos os tempos, com o maior número de patentes. Inventou a lâmpada incandescente, com filamento contido no vácuo em bulbo de vidro, para transformação da energia elétrica em luminosa e o fonógrafo, entre outros notáveis feitos. Descobriu o efeito termo-iônico ou a emissão de elétrons em metais aquecidos. Fundou o primeiro laboratório de pesquisa industrial no mundo. Todavia, freqüentou a escola apenas durante cinco anos.
O inglês John Dalton(1766-1844), natural de Eaglesfield, pioneiro da moderna Atomística, descobriu leis ainda hoje figurando nos modernos manuais de Química. Contudo, na escola foi tratado com desdém por conta da congênita incapacidade de perceber a cor vermelha, confundido-a com o preto, numa época em que a humanidade desconhecia inteiramente a protonopsia. Dalton estudou tal disfunção oftalmológica que, em homenagem a ele, traz o nome de daltonismo.
Exemplos da categoria fazem lembrar o adágio latino: Non scholae sed vitae discimus(Não devemos aprender para a escola, mas para a vida). A escola cada vez mais prepara para a escola. Os cursos técnicos de nível médio tornaram-se propedêuticos dos cursos superiores. Em cada esquina, abre-se nova empresa de cursinho garantindo ingresso franco na universidade. Esta não se completa com a conclusão de bacharelado ou licenciatura. Um e outra preparam para o mestrado, o mestrado para o doutorado, o doutorado para o pós-doutorado. Qual desses cursos escolares prepara mesmo para a vida? O melhor tempo da vida, a infância e a adolescência, as pessoas investem na escola, que talvez não apresente o melhor lugar para se viver. E o que virá depois? Talvez a bengala da senectude como último diploma.
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