quarta-feira, 19 de novembro de 2008

PROFESSORES AMBULANTES

Tive a feliz oportunidade de conhecer algumas destas curiosas figuras nos distantes tempos de minha infância, nas muitas e instrutivas viagens de férias, pelo norte do Ceará e pelo vizinho estado do Piauí, para as quais meu saudoso pai me conduzia. Na época e pelas circunvizinhanças da cidade onde nasci, a maioria das viagens tinha de ser feita no lombo de cavalos. E era assim que as fazia eu. Carros e estradas carroçáveis eram, então, raridades. Lembro-me ainda do antigo carro motorizado de meu avô materno: um importado Ford de Bigodes, cujas rodas tinham grossos raios de madeira. Pela carência de rodovias, poucas eram as viagens que nele se podiam fazer.
Os professores ambulantes sobreviviam de parcos proventos, da hospedagem, e alimentação recebidas nas fazendas para as quais eram convidados, com a finalidade de escolarizar a domicílio filhos, netos e outros familiares dos fazendeiros. O trabalho deles começava logo depois do café da manhã, juntamente com o trabalho dos agregados da fazenda. Estes saíam para a labuta nos campos, transportando aos ombros enxadas, pás, picaretas, alavancas e outras ferramentas. Na mesma ocasião, o professor ambulante ocupava a cabeceira de uma mesa no terraço, com os alunos em torno de si, cada um com uma cartilha entre as mãos. Suspendia momentaneamente as atividades por volta do meio dia, quando voltavam do campo os agricultores. Todos almoçavam, tendo depois curto período de repouso, ao cabo do qual um e outros retomavam as respectivas atividades, o primeiro a de instruir seus pupilos, os outros a de cuidar da lavoura e pecuária extensiva. Somente ao cair do sol, para o jantar, terminava para ambos o trabalho do dia.
Em regime de trabalho tão intensivo, de seis a doze meses, o professor ambulante dava por concluída a escolarização e por diplomados seus alunos, apressando-se em procurar outra fazenda cujo proprietário lhe solicitara os serviços. Pois, a cartilha terminava com uma série de textos escritos em letras cursivas de crescente dificuldade para decodificação. Salvo os mais rudes, os ex-alunos de quem se despedia eram agora capazes de ler receitas de médicos, ilegíveis para não poucos graduados de hoje. O conteúdo da alfabetização era de cunho moralista, versando sobre advertências, das quais vai aqui reproduzida uma delas: É uma tolice guardar todo o dinheiro só para que os outros nos chamem de ricos. Os ex-alunos assim escolarizados liam e escreviam bilhetes e cartas para amigos analfabetos que lhes pediam tal ajuda e reproduziam de cor as máximas moralistas aprendidas. Todavia, a escolarização não ia muito além deste limite, conforme pode depreender-se do subseqüente parágrafo.
Mestre Belo foi o professor ambulante que conheci mais de perto e com quem mais convivi porque tinha um filho único de minha idade, Oséas, com quem muito brinquei. Morava ele em Crateús, do mesmo lado da rua onde habitavam meus pais, cinco casas depois da nossa. De estatura avantajada, medindo quase dois metros, Mestre Belo trazia sempre um cachimbo à boca com fragmentos de fumo de corda, ou uma masca deste sob a bochecha. Relatou-me com brio episódio de que fora protagonista ao lado do coadjuvante Mestre Marçal. Este, para demonstrar superioridade, lhe perguntara certa vez: O que é um substantivo? À pergunta Mestre Belo respondera: Não lhe respondo a pergunta, sem que você alterne perguntas e respostas comigo a começar da letra. Pelo visto, a escolarização ministrada por estes professores não chegava às categorias gramaticais morfológicas.
A bem da verdade, diga-se que tais educadores não eram tratados pelo título que aqui se lhes atribui. Cunhei a expressão professores ambulantes para denominar esses heróicos alfabetizadores. Eram eles simplesmente tratados com a denominação de mestres e assim os conhecidos os chamavam de Mestre Belo, Mestre Marçal, Mestre Fulano, Mestre Beltrano. Mesmo porque naquele tempo inexistia a pós-graduação institucionalizada, com cursos de mestrado, doutorado, pós-doutorado. Aos que hoje se encontram matriculados nestes cursos, na área de ciências humanas, e ainda não encontraram tema para monografias, dissertações e teses, aqui deixo uma pista: encontrar e analisar as cartilhas utilizadas pelos professores ambulantes, coletar maiores informações junto às pessoas mais idosas das fazendas que os conheceram e que foram discípulos deles.

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