segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

DESCARTABILIDADE E OBSOLESCÊNCIA

Até meados do século XX, os isqueiros caracterizavam-se pela duração, eficiência e simplicidade. Apresentavam um depósito cheio de algodão donde se elevava o pavio. Para abastecê-lo bastava umedecer o algodão com gasolina comum, cujo poder de inflamação superava muito o da aditivada vendida hoje nos postos de abastecimento. Quando o algodão secava, era extremamente fácil reabastecê-lo tantas vezes quantas necessárias. Para tanto, bastava abrir a tampa do depósito do algodão e enchê-lo com o combustível. A roldana estriada de aço, cuja fricção com a pedra produzia a faísca sobre o pavio, movimentava-se com a rotação imprimida diretamente pelo polegar do usuário. Quando o atrito com a roldana consumia a pedra, colocava-se facilmente outra, destorcendo o parafuso, retirando-o juntamente com a mola para colocar pedra nova sobre o cabeçote metálico, torcendo-se em seguida o parafuso.
Depois apareceram os isqueiros descartáveis para serem lançados ao lixo tão logo se extinguia o fluido ou acabasse a pedra, movida indiretamente pelo polegar através de cômoda alavanca. Com tal substituição de um modelo por outro, o propósito dos fabricantes consistiu em aumentar o volume de vendas. Pois, se o produto é durável, a venda escasseia com a crescente saturação do mercado. Porém, a descartabilidade dos isqueiros vem desperdiçando de forma irrecuperável toneladas de substâncias polimerizadas de derivados do petróleo, matéria-prima não renovável. E o mesmo acontece com o plástico utilizado para embalagens e outros fins, até que a proclamada reciclagem se torne realidade palpável. A descartabilidade, dia após dia, vem se transformando em palavra de ordem para outros bens dos quais se esperava maior durabilidade. Automóveis e geladeiras começam a enferrujar nas lojas. Fácil seria evitar-lhes a corrosão
e multiplicar-lhes o tempo de vida útil, fabricando-os de aço inoxidável, resistente à reação com ácidos e bases, como pias de cozinha feitas com o mesmo material. A segurança do veículo extingue-se ao cabo de um ano ou dos cinqüenta mil quilômetros cobertos pela garantia. A geração do presente vê-se forçada a viver como se fosse a última, sob o signo do desperdício, à semelhança do rei de Versailles que profetizava: Après moi, le déluge(Depois de mim, o dilúvio).
A obsolescência programada induz os consumidores à rápida substituição compulsiva de bens por natureza duráveis. Por exemplo, os automóveis e os computadores mudam de modelo a cada ano e os fabricantes não renovam o estoque de peças para reposição. O usuário, que dispõe de poder aquisitivo, temendo não encontrar no mercado peças para eventual reposição no veículo, no monitor, impressora ou scanner, se desfaz do modelo do ano passado comprando o de última geração. Tal política consumista dispensa comentários sobre a trivial malversação de recursos naturais não renováveis. A bomba de combustível e a bomba de água para refrigeração do motor se desmontavam facilmente com a remoção de poucos parafusos para limpeza da válvula, substituição do diafragma ou troca de retentores. Hoje, elas vêm blindadas, inviabilizando qualquer tentativa de recuperação.
A descartabilidade e obsolescência também predominam na educação formal, que reproduz a sociedade. Até meados do século passado, os mesmos livros didáticos serviam para todos os filhos do casal. Recebi alfabetização com a mesma cartilha antes utilizada por minhas irmãs. Fiz o curso primário aprendendo pelo manual de Aritmética de Antônio Trajano, Ciências pelo de Gaspar de Freitas, Português pelo de Eduardo Carlos Pereira, também antes utilizado por elas. Os manuais mudam agora não apenas de ano para ano, mas de escola para escola, devendo o aluno substituir todo o material didático ao transferir-se de uma para outra. Além do desperdício de papel e valor agregado, a política consumista atenta contra a maioria da população de baixa renda. Evidentemente livros didáticos precisam mudar para atualização didática e de conteúdos. No entanto, tais mudanças não deveriam acontecer com tanta rapidez, terem um período de vigência maior, como ocorre em países desenvolvidos e ricos.

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