O filósofo alemão Arthur Schopenhauer(1788-1860) recorreu a forte alegoria para enfatizar a dificuldade, para ele talvez mesmo a impossibilidade, de comunicação profunda entre os seres humanos. A alegoria vai parafraseada a seguir.
Depois de catastrófico naufrágio em alto mar, um único sobrevivente, depois de duras penas, conseguiu chegar a uma ilha perdida na vastidão do oceano. Tão logo recobrou o ânimo e as forças, alimentando-se de frutos colhidos na ilha, o náufrago desejou se comunicar com alguém. Para tanto, várias vezes, gritou a plenos pulmões: “Eu estou aqui! Existe alguém aí?” Ao cabo de muitas tentativas, passou a escutar muitas vozes distantes exclamando o mesmo: “Eu estou aqui! Existe alguém aí?” Alegrou-se, imaginando não se encontrar sozinho em ilha deserta, e aproximou-se para conhecer seus interlocutores. Porém, decepcionou-se amargamente, ao perceber que seus supostos interlocutores não passavam de coloridos papagaios, que se limitavam mimeticamente em repetir sem compreender a exclamação e interrogação que ele mesmo tantas vezes fizera em busca de companhia. Decepcionou-se, também, com um bando de irrequietos macacos, que, dos galhos pendentes das árvores, se ocupavam de repetir os gestos que ele mesmo fazia. Para consolo pela própria solidão, o náufrago considerou que, nas sociedades humanas, o engano dura por tempo bem maior porque os interlocutores têm o aspecto de seres humanos.
Bem depois da alegórica observação de Schopenhauer sobre a condição humana de solidão, os comunicadores passaram a falar em comunicação de superfície, em oposição à comunicação de profundidade. A primeira é epidérmica, situa-se apenas externamente na crista das modas momentâneas, aglutina multidões solitárias, nas quais cada pessoa se limita em satisfazer o próprio individualismo econômico. Na comunicação de profundidade, cada interlocutor se esforça em ocupar o lugar do outro, em compreendê-lo intimamente por empatia.
Em sociedades nas quais a competição e a agressividade tornaram-se palavras de ordem, a comunicação de profundidade torna-se cada vez mais rara, predominando aquela de superfície. No entanto, a constatação não desfaz o forte desejo das pessoas pela comunicação de profundidade. Por este desejo, talvez, elas a procuram tanto em interlocutores ausentes, via internet e telefonia celular, por encontrarem nos presentes apenas a comunicação de superfície.
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