A vida evidentemente não se caracteriza pela uniformidade, mas sim pela diversidade. Em Biologia não existe uma única espécie de ser vivo. Entre extintas e ainda sobreviventes, os taxionomistas descrevem mais de um milhão de espécies diferentes. E dentro de cada espécie, cada indivíduo assume forma particular, diversa daquelas dos outros espécimes. Nenhuma zebra é igual à outra, pois, até na disposição e desenho das rajas negras sobre a pilosidade epidérmica, elas se diferenciam entre si. Não existem duas laranjeiras ou mangueiras iguais. Nelas variam o número e inclinação dos galhos em busca da luz. A variedade estende-se para os seres minerais e não vivos, conforme atestam indiscutivelmente a Química e a Astronomia.
A diversidade também impera na espécie humana, verificando-se nítidas diferenças tanto somáticas quanto psíquicas entre povos, civilizações, culturas e indivíduos, conforme atestam a Antropologia, a Etnografia e a Psicologia. A pele, os olhos e o cabelo diferem entre arianos, eslavos, japoneses, chineses, africanos e ameríndios. Alguns têm a tez amarela, outros negra, esses bronzeada, aqueles branca. A cor da íris, nos olhos, varia do negro ao castanho, do verde e azul ao vermelho nos albinos. Igualmente varia a cor dos cabelos, passando do negro ao branco, através do castanho, do ruivo e do louro. Diverge também a configuração dos cabelos: lissótricos, lisos estirados ou escorregadios; ulótricos, crespos, cacheados ou lanosos; pixains ou encarapinhados. O formato do nariz passa do platirrino baixo e achatado ao leptorrino, proeminente, alongado e estreito, através do mesorrino, intermediário entre os dois anteriores. Há indivíduos com nariz reto, ao lado de alguns com nariz côncavo ou arrebitado e de outros com nariz convexo ou adunco como o bico de araras e aves de rapina. No tocante ao crânio, mesaticéfalos distinguem-se de dolicocéfalos e braquicéfalos. A diversidade se estende às restantes partes do corpo, servindo de fundamentação para larga faixa de biotipologias.
Os atributos psíquicos também variam amplamente entre as pessoas. Há umas calmas, outras agitadas, outras irrequietas e hiper-ativas. Há introvertidas, voltadas para a introspecção, extrovertidas, voltadas para a observação do mundo exterior. Existem dóceis, obedientes, contestadoras e rebeldes. Os indivíduos também se distinguem pelo poder da memória e da atenção, pela modalidade e grau de inteligência. Há centenas de religiões. Somente em nome de Cristo existem dezenas delas. Mas contam-se também numerosos ateus, agnósticos e panteístas. Existem muitas tendências e partidos políticos.
A uniformidade, desvario de muitos políticos e organizadores sociais, cai no delírio de negar a diversidade e de a ela opor-se tenazmente. Instaura tribunais de inquisição. Proíbe leituras, incinera bibliotecas, destrói patrimônios artísticos. Promove sangrentas guerras. Vigia, persegue, tortura e massacra os dissidentes. Historicamente tem se revelado como um dos mais cruéis inimigos da humanidade.
A institucionalização traz em si, de forma velada ou proclamada, o propósito de uniformização, de oposição à vida. Em algumas instituições, tal propósito manifesta-se da cabeça aos pés das pessoas: no quepe ou capacete, na farda ou uniforme, nas botas. Os indivíduos não caminham naturalmente, marcham no mesmo passo e cadência, ao ruflar de tambores, toques de ordem da corneta, ao som de bandas marciais, conforme descreve a Sociologia Militar. A escola oficializada, que reproduz a sociedade uniformizadora, exige farda dos alunos, com os quais exibe paradas em determinadas efemérides. Vira quartel, ao invés de casa de educação. Inibe a criatividade e sufoca a originalidade dos alunos. Insiste sobre a memorização mecanizada em detrimento da reflexão crítica.
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