sexta-feira, 28 de novembro de 2008

LÓGICA DO LUCRO

Os economistas definem o lucro(L) como a diferença entre o preço de comercialização(C) de um bem ou serviço e o custo de produção(P) pelo qual ele é obtido: L = C – P. O custo de produção é o somatório de todos os insumos gastos para obtenção do bem ou serviço: matéria-prima, energia elétrica, térmica e mecânica, transporte da fonte à fábrica e desta ao consumidor, mão-de-obra, salários e encargos sociais(décimo terceiro mês, previdência, seguro, vale-transporte, vale-alimentação). Na escrituração mercantil de caixa, o lucro é a diferença entre as colunas do haver e do dever.
Uma das premissas fundamentais do sistema capitalista, no insaciável processo de concentração de renda, consiste em aumentar cada vez mais o lucro, ou seja, a diferença entre preço de venda(C) e gastos na produção(P). Para tanto, procura, de um lado, por todos os meios e expedientes, aumentar o preço de comercialização(C). Por exemplo, o mercado de veículos oferece modelos de motocicleta cujo preço supera, em mais de três, aquele de um automóvel popular. Lembre-se que este tem quatro rodas e uma quinta no estepe e não apenas duas, como aquela, maior tamanho, número de peças e cilindrada no motor. E o Estado comporta-se como escravo fiel da estranha lógica, cobrando taxa de emplacamento bem maior para a motocicleta. Contudo, o preço de venda não pode aumentar desenfreadamente ad libitum, pois as empresas concorrentes podem baixar um pouco os seus, ganhando assim a luta pelo mercado consumidor. No entanto, as empresas contornam este óbice, formando monopólios e firmando cartéis.
Por outro lado, a mesma premissa fundamental do sistema capitalista, para efeito de maximização do lucro, consiste em diminuir cada vez mais os gastos na produção(P). Para tanto, terceiriza serviços, passando para outros, os insumos com instalações, aluguéis e contratação de pessoal; instala fábricas próximas dos mercados mais consumidores, diminuindo assim os gastos com transporte; reduz a quantidade de mão-de-obra através da mecanização e informatização no trabalho; instala parques industriais em regiões de mão-de-obra mais barata ou com o aliciamento de incentivos fiscais; substitui formas mais dispendiosas de energia por complexos alternativos geradores de energia limpa mais barata, como a solar, a eólica, a geotérmica, a da força das marés; cria parcelamentos e outras formas de financiamento.
O lucro unitário é aquele referente a um só bem ou serviço, por exemplo, o obtido na venda de uma geladeira, de uma garrafa de refrigerante, ou de um leito hospitalar, de uma matrícula na escola. Lucro total é o somatório de todos os lucros unitários da empresa. Evidentemente, a concentração de renda será tanto mais intensa quanto maior for tanto o lucro unitário quanto o total. Este reduz substancialmente os gastos com aquele. A formatação e o conteúdo de um único livro serve para imprimir milhares. Para aumentar o lucro total, as empresas mais agressivas investem pesado na publicidade e marketing. Seus estandartes tremulam por todos os lados. Sua publicidade ocupa muros das ruas e rodapés das arquibancadas em estádios esportivos. Os atletas de olimpíadas, das chuteiras, através do calção e camisa, até o boné, transformam-se em verdadeiros outdoors ambulantes das firmas patrocinadoras. Ela interrompe várias vezes o noticiário, a novela ou o filme da televisão para apregoar as virtudes da mercadoria. Oferece aos consumidores brindes como canetas esferográficas, chaveiros e medalhas.
Essa lógica, contudo, mal pode camuflar profunda contradição. Para que os mercados potenciais possam ser explorados requer-se que tenham suficiente poder aquisitivo para as compras, sobretudo aquelas de mais elevado valor. E isto se opõe à desenfreada concentração de renda. Aqui cabe uma observação de Karl Max(1818-1883). O capitalismo é um cortejo fúnebre no qual ele é, ao mesmo tempo, o coveiro e o defunto.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

RECICLAGEM DA CONTESTAÇÃO

O capitalismo dispõe de estratagemas para transformar em aliados indivíduos e movimentos sociais que se insurgiram contra o consumismo exacerbado que o caracteriza. Entre eles se destacam a atribuição de status, a cooptação e a recuperação.
Na atribuição de status, persuade as pessoas e organizações que serão tanto mais importantes e superiores quanto mais sofisticados forem os objetos possuídos em qualquer gênero. Em telefonia celular o indivíduo que somente tem frivolidades a dizer acredita superar em sabedoria todos aqueles que não possuem telefone igual ou superior ao seu que acumula as funções de calculadora, relógio e máquina fotográfica. Quem atropela pedestres e colide em ciclistas, ao volante de um carrão automático provido de ar condicionado, air-bags, televisão e som ensurdecedor, crê superar em ética quem se locomove a pé, em coletivos ou em veículos antigos.
Na cooptação, parte-se do pressuposto de que os líderes se opõem ao consumismo porque não dispõem de poder aquisitivo para fazê-lo e por secreta inveja daqueles que o exercitam. Os mantenedores do sistema promovem, então, esses frustrados líderes a cargos bem remunerados, fundamentando a estratégia em aforismos do gênero: Ninguém pode falar com a boca cheia. Ninguém serra o galho da elevada árvore no qual se acha encarapitado. Podendo agora consumir fartamente, desmoralizam-se os falsos líderes ou estes passam da condição de contestadores à de defensores do consumismo.
Na recuperação, a estratégia varia conforme os contestadores sejam mortos ou vivos. No primeiro caso, o sistema, depois de algum tempo, enaltece ou mesmo diviniza aqueles que perseguiu, torturou e assassinou. É o caso de Cristo, com o cortejo de renas e papais Noel postos a serviço do consumismo natalino. De Joaquim José da Silva Xavier, enforcado e esquartejado, para posteriormente ser transformado em herói nacional com feriado comemorativo no dia 21 de abril. No caso dos vivos, o sistema massifica símbolos e objetos artesanais contestadores, produzindo-os em série e comercializando-os em larga escala. Tais produtos tornam-se moda corrente entre pessoas ignorantes, diluindo-se assim a original força contestadora e incrementando ainda mais o consumismo. Foi o que aconteceu com o movimento de contracultura hippy, nas décadas de 60 e 70, e com o posterior movimento punk.
Todavia, não se pode prever o que tal reciclagem da contestação venha a ocasionar: simples mudanças ou transformações? Com efeito, quem ocupa a supremacia tem o poder de tomar e impor decisões. No entanto, historicamente tem se manifestado impotente para controlar e determinar o que venha futuramente a acontecer por conta e força de tais decisões.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

VARIÁVEIS

Há dezenas de anos, povos asiáticos, como assírios, babilônios, chineses e japoneses, já conheciam a importância das variáveis para construção das ciências naturais. Graças a elas, os egípcios erigiram pirâmides, templos e monumentos colossais que continuam fascinando os visitantes. Entre os antigos gregos, destacou-se a saliente contribuição de Arquimedes(290-212 ACN) de Siracusa. Inventou o parafuso que traz o seu nome. No parafuso de Arquimedes, longa estrutura helicoidal provida de manivela na parte superior, bem ajustada a um cilindro e inclinada em angulação de 45o, eleva a água do porão de navios ou de poços. Servindo-se de espelhos parabólicos, incendiou a esquadra romana que ameaçava destruir Siracusa. Descobriu o princípio do empuxo, segundo o qual, todo corpo colocado num fluido(líquido, vapor ou gás) sofre uma força vertical de baixo para cima igual ao peso do fluido por ele deslocado. Calculou o número Π com aproximação de três casas decimais.
Depois de longo período de ostracismo, a observação das variáveis, enquanto condição indispensável para construção das ciências factuais, foi retomado por Nicolaus Copernicus(1473-1543), Tycho Brahe(1546-1601), Giordano Bruno(1548-1600), Galileo Galilei(1564-1642), Johannes Kepler e Isaac Newton(1642-1727). O polonês Copérnico substituiu a Terra pelo Sol como centro de nosso universo. O dinamarquês Tycho Brahe inventou os primeiros instrumentos de observação astronômica, mediu e fixou a posição de mais de 700 estrelas. O italiano Galileu inventou o telescópio, descobriu montanhas e vales na Lua e quatro satélites de Júpiter, as leis do movimento pendular, o valor da aceleração centrípeta terrestre, sendo por mérito considerado o pai do método experimental moderno. O alemão Kepler descobre as leis que regem o movimento dos planetas descrevendo elipses em torno do Sol. O inglês Newton descobre a lei da gravitação universal.
Denominam-se variáveis quantitativas aquelas que se podem mensurar, às quais se pode atribuir um valor numérico. Exemplificam-nas a altura e o peso das pessoas. Denominam-se variáveis qualitativas aquelas que não se podem medir, como a cor da pele, dos olhos e dos cabelos, o formato do crânio, do nariz e das orelhas.
O árduo trabalho de construção do conhecimento científico se opera com a curiosa, paciente, atenta e metódica observação das variáveis que andam associadas umas às outras no objeto estudado. Às vezes, se encontram associadas duas variáveis qualitativas. Verificou-se, por exemplo, que, em pessoas expostas aos raios solares, o câncer de pele manifesta-se mais naquelas de tez branca do que nas outras de cútis negra. Outras vezes, se acham associadas duas variáveis quantitativas. Assim os nutricionistas ensinam que o peso da pessoa é tanto maior quanto maior é a quantidade de calorias ingeridas na alimentação diária e quanto menor o número de horas dedicadas ao exercício muscular. Enfim e mais raramente, variáveis qualitativas se associam a quantitativas. É o caso das notas musicais que, quanto mais agudas tanto mais correspondem a freqüências elevadas: o dó mais grave da orquestra é produzido por onda longitudinal de 16Hz, o dó de uma oitava acima por outra de 32Hz e oitavas superiores por 64Hz, 128Hz, 256Hz... É o caso ainda das cores que correspondem a diferentes comprimentos de ondas transversais, conforme suas posições no espectro: o roxo aparece com ondas de 4.000 Ǻ, o vermelho com as de 6.000 Ǻ.
O estudo das variáveis, à semelhança de tantos outros, oferece lições pedagógicas sobre o ensino das ciências naturais. Este consiste muito mais em desenvolver nos educandos hábitos de observação pessoal, de cuidadosa comparação, de tabulação de dados, de elaboração e interpretação de gráficos, de aceitáveis conclusões sobre os resultados, do que na mecânica memorização de leis, fórmulas e princípios desacompanhados da imprescindível compreensão. A quantidade das informações deve submeter-se à qualidade da formação. O programa didático deve privilegiar o exercício e o domínio do método científico, que permitirá ao educando aprender bem por si mesmo o que se encontra dentro e fora do programa.Aqui como alhures cai bem o adágio popular: Mais vale dar o anzol que o peixe.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

DIÁLOGO EDUCATIVO

Parece pleonástica a expressão diálogo educativo. Pois, todo diálogo verdadeiro é educativo. Mesmo assim, toma-se aqui a expressão para uma ficção cujo objetivo consiste em ilustrar o magistral processo de ensino empregado por Sócrates(470-399ACN) de Atenas para promover a aprendizagem de Platão(428-347 ACN) de Atenas, Xenofonte(431-350) da Ática, Alcibíades(450-404) de Atenas, Fédon(417-? ACN) de Elis e de muitos outros. Na ilustração, a letra M indica o mestre e a D os discípulos da escola pedagógica grega.
D – Mestre, o que é o sol?
M – Devolvo a pergunta a vocês: o que é o sol?
D – Ah, evidentemente o sol é o Deus Apolo, que tem seu oráculo em Delfos, onde a pitonisa transmite profecias dele aos mortais. Todos os dias, ele faz o mesmo périplo, com exemplar assiduidade, em suntuosa quadriga puxada por fogosos cavalos: surge no leste, das espumas de Afrodite, no mar Egeu, percorre o firmamento e desaparece no oeste, mergulhando nas espumas de Afrodite, no mar Jônico.
M – Por favor, olhem o céu, contemplem o sol e façam a bondade de mostrar-me Apolo, a quadriga e os cavalos.
D – Não estamos conseguindo vê-los, apesar de nossas insistentes tentativas...
M – E como concluíram vocês sobre Apolo e a quadriga?
D – Ora, foram nossos pais e os fervorosos devotos da divindade que nos asseveraram.
M – Então, sugiro uma interrupção de nosso diálogo para que vocês os consultem sobre como devem proceder para ver o deus, a carruagem e os cavalos.
Obviamente, pais e fervorosos devotos responderam jamais haverem visto pessoalmente Apolo, quadriga e cavalos, neles acreditando por causa dos sábios ensinamentos dos sacerdotes e pitonisa, a quem faziam generosas dádivas. Os discípulos, então, procuraram sacerdotes e pitonisa, porém as instruções prescritas por uns e outra foram ineficazes para o procurado aparecimento celestial e divino. Os discípulos retornaram, então, ao mestre para dar prosseguimento às atividades discentes.
M – Saudações, rapazes! Conseguiram, enfim, vislumbrar Apolo no hemisfério celeste?
D – Lamentavelmente, não! Redondamente baldadas foram nossas curiosas pesquisas. Inoperante e inútil foi o recurso aos pais, piedosos devotos, aos próprios sacerdotes e à pitonisa.
Confessamos agora ignorar o que seja o sol...
M – Não sejam, portanto, pessimistas. Pois, sábios revelam-se aqueles que sabem que não sabem quando realmente não sabem. O burro que já sabe que é burro sabe mais do que o outro que ainda continua pensando ser um cavalo. Por conseguinte, merecem meus efusivos parabéns. Concluída assim a primeira parte irônica da educação, passemos agora à segunda parte maiêutica. Contemplem novamente o sol e respondam por si mesmos as seguintes perguntas.
D – Com muito prazer, mestre!
M – O sol é um corpo aquático, celeste ou terrestre.
D – Evidentemente celeste, pois não é peixe para viver na água, minhoca ou tatu para sobreviver dentro do solo.
M – O sol é triangular, quadrado, hexagonal ou redondo?
D – Indiscutivelmente redondo.
M – O sol é luminoso, transparente ou opaco?
D – Inegavelmente luminoso.
M – É quente ou frio?
D – Quente. A quem disto duvidar basta sair da sombra, ao meio-dia, no verão.
M – O sol é azul, verde, amarelo ou roxo?
D – Amarelo como o ouro nativo das pepitas.
M – Agrupem agora as respostas apresentando uma definição preliminar do sol.
D – O sol é um corpo celeste, um astro redondo, amarelo, luminoso e quente.
M – Muito bem!
Depois de tantos séculos, na maioria das escolas ainda prevalece a comunicação vertical,
unidirecional, de cima para baixo, autoritária, no lugar da socrática, dialógica, circular e compartilhada. Talvez porque esta trouxe o colapso da religião oficializada, a morte de Sócrates e os germens de verdadeira transformação social.

MUDANÇAS E TRANSFORMAÇÕES

Nas mudanças, a realidade individual ou social varia apenas superficial e acidentalmente. As mudanças podem se manifestar, por exemplo, no indivíduo que, recorrendo à pintura artificial, muda a cor dos cabelos a cada semana; em plano social, na telefonia celular que passa sucessivamente da TIM para CLARO, para OI.
Nas transformações, a realidade individual ou social varia profunda e substancialmente. Exemplificam-nas, em plano individual, a primeira e a segunda dentição, as variações comportamentais que se sucedem da infância para a puberdade, adolescência, juventude e senectude; em plano social, na economia que passa da gestão individualista, autoritária e competitiva para a cooperativista, verdadeiramente democrática, com participação de todos os trabalhadores nas decisões e nos lucros.
Nas mudanças, as coisas variam nas aparências, mas não na essência, mudam enganosamente para continuarem as mesmas. Já nas transformações, as realidades passam a ser realmente outras, como no gelo ao virar líquido e este a vapor, na estrela substituída por um buraco negro. No entanto, as mudanças podem trazer germens de transformações que eclodem a olhos vistos nos assim denominados saltos qualitativos.
Os saltos qualitativos e as transformações por eles reveladas se sucedem com rapidez muito maior no plano individual do que no social. Nos indivíduos, em menos de cem anos elas já se completaram. Nas sociedades, elas se operam em milênios. A lição vale para os apressados que concluem que as transformações sociais deixaram definitivamente de acontecer simplesmente porque delas eles não são testemunhas. Para eles vale lembrar que a maioria das pessoas nasce e morre sem ver o cometa de Halley, cujo período completa-se apenas de 76 em 76 anos.
Outro dado histórico que leva pessoas a desacreditarem em futuras transformações nas sociedades consiste nas aparentes transformações sociais que realmente não passaram de meras mudanças. Esperança em transformações sociais profundas acompanhou a visível e crescente participação da mulher nas políticas estatais. Os pacifistas esperavam que guerras não seriam declaradas por mães dos homens. Ledo engano. A inglesa Margaret Hilda Thatcher, primeira mulher européia a tornar-se ministra de Estado, não hesitou em fazer o que alguns homens sensatos não teriam feito: a macabra chacina dos argentinos, em 1982, nas Ilhas Malvinas, castigando duramente aliados na guerra contra o Iran, em1980. Os Estados Unidos da América do Norte elegeram Barack Obama como vigésimo quinto presidente. Os quarenta e quatro anteriores foram brancos. Somente agora desponta o primeiro de cor. Trata-se de mudança ou transformação? Destaque-se que, nesse país, até a metade do recente século XX, pessoas de cor eram excluídas de transportes públicos e universidades. Começaram timidamente a aparecer na publicidade de produtos culinários e em papéis secundários no cinema, como transportadores de liteiras, com ênfase na condição de escravas. Em seguida, começaram a protagonizar filmes com elevados índices de bilheteria. Essas mudanças crescentes na mesma direção e sentido pelo menos parecem prenúncios de transformações no ordenamento das relações sociais. Contudo, torna-se imprescindível a atuação de numerosos indivíduos conscientes para que elas se orientem para o progresso, e não para o retrocesso.

PRURIDO DE NOVIDADES

O novo nem sempre é superior ao antigo, nem este pior que aquele. A observação conduz a pensar em modismos vigentes em certos meios acadêmicos. Não é o fato de ser mais recente garantia única de que uma publicação seja melhor que outra ou tenha realmente algo de essencial a lhe acrescentar. Alguns exemplos pretendem ilustrar a observação.
Em cursos de Filosofia, a assim denominada Philosophia de Mente parece ascender ao zênite entre intelectuais de araque ou agentes do colonialismo reflexo, conforme os denominou Darcy Ribeiro. Catedráticos e discípulos imaginam trilhar o mau caminho, se prescindem da expressão em colóquios, debates e alocuções. Observe-se, contudo, que a expressão literalmente traduzida levaria ao ridículo, ao qual não resistem nem ditaduras e teorias. No entanto, como diria Quintus Horatius Flaccus(65 ACN-8PCN), Veritatem ridendo dicere quis vetat?(Quem proibiria dizer a verdade sorrindo?) Primeiramente, poder-se-ia assim equacionar a definição: Filosofia de mente = Filosofia demente? Em segundo lugar, se a preposição latina de recebe a tradução provavelmente pretendida pelo autor da expressão, de sobre, a respeito de, redundaria apenas em temas já explorados pela teoria das percepções, em Psicologia, e pela teoria do conhecimento, em Filosofia. Em terceiro lugar, resta demonstrar se, sob o novo rótulo, a tal Philosophia de Mente tem algo realmente de valor a adicionar ao que já se sabe. Em quarto lugar, outra interpretação cabível da Philosophia de Mente levaria a aceitar a mente como o instrumento do estudo. Ora, tal acepção não ultrapassa a mera trivialidade, considerando-se que a mente constitui o instrumento de todos os estudos e ciências. A observação de Horatius também mostra que até as crenças religiosas se abalam com o poder do riso, como no hilariante caso recentemente ocorrido no Conjunto dos Bancários, em João Pessoa. No alto do muro frontal de uma residência, ao lado de um cacho de roxas uvas, se inscrevia: Igreja Celular. Talvez para transmitir a idéia de pequena comunidade, e não de aparelho telefônico. Um gaiato passou a chamá-la Igreja Cedular, para lembrar que a seita vive às expensas de cédulas monetária extorquidas de elevadas taxas da pobreza circundante. Foi o suficiente para que os pastores da seita mandassem imediatamente apagar o título e o cacho de uvas do muro.
Antigamente, para alguém que se debruçava com ardor sobre a leitura de determinado autor ou o estudo de certo tema, dele se dizia: o autor tal ou a teoria qual é seu livro de cabeceira. Hodiernamente passou-se a dizer: fulano de tal está sentado sobre determinado autor ou teoria. Ora, ao que tudo indica, não é por polpudas nádegas ou pelo cego traseiro que os conhecimentos penetram na mente. Logo, é a forma antiga de se expressar que corresponde mais à realidade, sendo menos chula e grosseira. Nenhum bom mecânico moderno pretende substituir a antiga roda, cuja idade se perde na noite dos tempos, por um quadrado ou triângulo. Ela continua atual e insubstituível em veículos, motores e outros engenhos.
Igualmente, parece não acrescentar substancial coisa ao conhecimento a troca das palavras rádio por uno e aurículas por adros, vocábulos respectivamente empregados para designar o osso mais interno do braço e as cavidades cardíacas superiores aos respectivos ventrículos.
O modismo leva pesquisadores à pretensão de ajustar os fatos encontrados à teoria e ao autor, quando estes não mantêm relações com eles, ao invés de procurarem autores e teorias que a eles mais se adaptem. Doutorando em Educação Popular pretendeu, a ferro e fogo, explicar a literatura de cordel, objeto de sua tese, à luz da filosofia de Habermas, então na crista da moda, quando, ao que consta, o pensador germânico nada produziu sobre os trovadores populares nordestinos.
Todavia, para evitar qualquer preconceito contra o novo e apego irracional ao antigo, vale lembrar que as mudanças e transformações constituem parte integrante do mundo real ou, como dissera Heráclito de Éfeso(540-480 ACN), Tudo corre e nada está parado. Se a realidade muda tanto assim, conforme demonstra a observação direta dos fenômenos naturais, em conseqüência deve mudar o conhecimento da mesma. Logo, o bom intelectual aceita que o conhecimento válido para uma época não o é igualmente para outra e age em coerência. A descoberta de um único fato novo, suficientemente comprovado, basta para invalidar uma teoria, substituindo-a por outra nova, que explique tudo que a outra explicava e também o fato novo por ela não explicado.
Em síntese, quatro casos são possíveis. Primeiramente, tanto o conhecimento antigo quanto o novo são aceitáveis. A erupção do Vesúvio, perto de Nápoles, no ano 70, foi tão real como a erupção do Krakatoa, em 1883, na Indonésia, ocasionando grandes inundações nas vizinhas ilhas de Sumatra e Borneo e até mesmo em Portugal, onde embarcações foram lançadas do mar ao continente. Em segundo lugar, o conhecimento antigo é tão falso como o novo. Os deuses mitológicos em que acreditavam gregos e romanos eram tão irreais quanto as superstições do homem moderno. Em terceiro lugar, o conhecimento antigo era correto e o novo incorreto. O homem do neolítico já sabia que o atrito eleva a temperatura e o utilizava em madeiras secas para produzir o fogo, enquanto muitos, ainda hoje, admitem que o sal de cozinha, colocado sobre chapa quente, afugenta visitas indesejáveis. Em quarto lugar, o conhecimento antigo era falso e o novo correto. Até a alvorada do século XX, gregos e troianos não aceitavam a comunicação à distância, a não ser através de arautos, como Estentor, de que se serviam os reis para proclamar editos. Hoje todos conhecem e usam o telégrafo, o telefone, o celular, a internet, o rádio e a televisão. Portanto, sábio demonstra-se aquele que age sem preferências tendenciosas pelo antigo ou pelo novo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

JUVENTUDE E VELHICE

Comparam-se muitos provérbios populares a agradáveis fragrâncias de preciosas essências, contidas em pequenos frascos. Efetivamente, em breves formulações, adágios que passam de bocas a ouvidos de pessoas simples encerram profundas lições de sabedoria. É o que se pretende examinar a propósito da juventude e velhice.
De forma sintética e proverbial, o povo valoriza a velhice, ao proferir ditados como estes: Macaco velho não mete a mão em cumbuca. Coco velho é que dá azeite. Qui trop a vecu trop a vu(Quem muito viveu viu o bastante). Obviamente semelhantes adágios valorizadores da terceira idade não se aplicam a todos, pois há aqueles que viveram sem ter vivido, dos quais escrevera o poeta: Quem passou pela vida em brancas nuvens,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espetro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
A quase totalidade das culturas valorizou a acumulada experiência e sabedoria dos mais velhos, tanto assim que Carl Jung(1875-1961), psicólogo suíço fundador da Psicologia Analítica, o introduziu entre os arquétipos. Nações indígenas norte-americanas convocavam conselhos de anciãos para deliberar em momentos de crises. A República Romana conferiu poder legislativo aos senadores. Lembre-se que a palavra senador deriva etimologicamente do substantivo senex, senis, que significa velho, cognata, portanto, de senectude, senil. Como não há regra sem exceções, havia senadores mais jovens, conspiradores como Lucius Sergius Catilina(108-62 ACN) ou mesmo irracionais, como o cavalo Incitatus, consagrado senador por Calígula sob calorosos aplausos de seus apaniguados.
Outros adágios populares valorizam a juventude, como aquele que reza: Papagaio velho não aprende a falar. No mundo dos desportos, todos conhecem que, rapidez dos reflexos e prontidão dos músculos desaparecem à medida que se distanciam da juventude. Por esta razão, mesmo os melhores atletas costumam pendurar as chuteiras, o mais tardar, por volta dos trinta anos. A História das Artes e Ciências oferece convincentes exemplos de jovens que realizaram prodígios que muitos idosos envolvidos na mesma atividade não conseguiram. Jesus, com apenas doze anos deixou abobalhados doutores da lei, escribas e fariseus no templo de Jerusalém. Porém não foi o único caso. Alguns outros, a seguir rapidamente relatados, ilustram a afirmação.
Cinco séculos antes da era cristã, os gregos já conheciam o magnetismo. A descoberta deve-se a um pastor adolescente que, enquanto seu rebanho de ovelhas pastava, observou que um pedaço de magnetita(Fe4O3), talvez o fragmento de um meteorito, por ele encontrado no campo, atraía pregos e outros objetos de ferro.
Quando Napoleão Bonaparte(1789-1815) esteve no Egito, decidiu arrebatar para Paris, além de outras preciosidades faraônicas, o obelisco fincado hoje na Praça da Concórdia. A fina e elevada peça monolítica quadrangular, com a extremidade superior terminada em pirâmide e as quatro faces laterais repletas de hieróglifos, não se partiu na operação graças à advertência de uma criança, e não à de um adulto ou velho mestre-de-obras. Ao levantarem o monumento, as cordas que o suspendiam começaram a ranger, ameaçando se romperem. Então, uma criança gritou: Molhem as cordas! Os operários obedeceram imediatamente ao conselho. Seria o sábio menino filho de algum marujo? Ora, os marinheiros de caravelas, chalupas e outras embarcações movidas à força eólica costumam lançar água sobre as velas para que ventos impetuosos não as estraçalhem.
Nos correntes dias, meninos passam quinau em adultos no domínio de todos os recursos da telefonia celular de última geração. Jovens navegam pela Internet com desembaraço, comunicando-se entre si, escrevendo em blogs, orkuts e e-mails, fazendo circular idéias e pensamentos numa época em que os mass media e os professores persistem em autoritária comunicação vertical e unidirecional que não deixa margem ao diálogo, a não ser o de concordância com o emissor da mensagem.
O francês Évariste Galois(1811-1832) entendia muitíssimo de Matemática e pouquíssimo de esgrima. Tanto assim que foi assassinado em duelo aos 21 anos. Ao morrer, contudo, deixou desenvolvida em Álgebra, a teoria de grupo, que permite a resolução de equações pelos expoentes, como a de quinto grau.
O austríaco Johann Chrysostom Wolfgang Amadeus Mozart(1756-1791), unanimemente considerado como um dos maiores compositores de todos os gêneros da música clássica ocidental já tocava piano e compunha bem aos cinco anos de idade. Aos 13 anos seu genial talento encantou a Europa durante tournée pela Itália. Em Verona, obteve pleno sucesso em rigorosos testes na Academia Filarmônica. Em Milão, depois de submetido a difíceis provas, foi escolhido para escrever a primeira ópera para a estação do carnaval. O sucesso o acompanhou por Bolonha e Florença. Em Roma, escutou o coro da Capela Sistina executando o famoso Miserere de Gregório Allegri(1582-1651). Até então, ninguém tinha a partitura do Miserere, a não ser o coro da Capela Sistina. Contudo, depois de escutá-lo uma vez, Mozart a escreveu sem erro algum. Escreveu e regeu as três primeiras apresentações da ópera Mitridate ré di Ponto(Mitrídates, rei de Pontus) no Régio Ducal Teatro de Milão.
Com simplicidade e sem presunção, em contraste a muitos acadêmicos pedantes, o povo não enche a boca com dialética, mesmo porque talvez nunca tenha lido Heráclito de Éfeso(540-480), Georg Wilhelm Friedrich Hegel(1770-1831), Karl Marx(1818-1883). Porém, demonstra pensar dialeticamente. Pois, examina ambos os lados da questão, evitando tornar absolutas as respostas para um universo múltiplo e em permanente mutação.

PROFESSORES AMBULANTES

Tive a feliz oportunidade de conhecer algumas destas curiosas figuras nos distantes tempos de minha infância, nas muitas e instrutivas viagens de férias, pelo norte do Ceará e pelo vizinho estado do Piauí, para as quais meu saudoso pai me conduzia. Na época e pelas circunvizinhanças da cidade onde nasci, a maioria das viagens tinha de ser feita no lombo de cavalos. E era assim que as fazia eu. Carros e estradas carroçáveis eram, então, raridades. Lembro-me ainda do antigo carro motorizado de meu avô materno: um importado Ford de Bigodes, cujas rodas tinham grossos raios de madeira. Pela carência de rodovias, poucas eram as viagens que nele se podiam fazer.
Os professores ambulantes sobreviviam de parcos proventos, da hospedagem, e alimentação recebidas nas fazendas para as quais eram convidados, com a finalidade de escolarizar a domicílio filhos, netos e outros familiares dos fazendeiros. O trabalho deles começava logo depois do café da manhã, juntamente com o trabalho dos agregados da fazenda. Estes saíam para a labuta nos campos, transportando aos ombros enxadas, pás, picaretas, alavancas e outras ferramentas. Na mesma ocasião, o professor ambulante ocupava a cabeceira de uma mesa no terraço, com os alunos em torno de si, cada um com uma cartilha entre as mãos. Suspendia momentaneamente as atividades por volta do meio dia, quando voltavam do campo os agricultores. Todos almoçavam, tendo depois curto período de repouso, ao cabo do qual um e outros retomavam as respectivas atividades, o primeiro a de instruir seus pupilos, os outros a de cuidar da lavoura e pecuária extensiva. Somente ao cair do sol, para o jantar, terminava para ambos o trabalho do dia.
Em regime de trabalho tão intensivo, de seis a doze meses, o professor ambulante dava por concluída a escolarização e por diplomados seus alunos, apressando-se em procurar outra fazenda cujo proprietário lhe solicitara os serviços. Pois, a cartilha terminava com uma série de textos escritos em letras cursivas de crescente dificuldade para decodificação. Salvo os mais rudes, os ex-alunos de quem se despedia eram agora capazes de ler receitas de médicos, ilegíveis para não poucos graduados de hoje. O conteúdo da alfabetização era de cunho moralista, versando sobre advertências, das quais vai aqui reproduzida uma delas: É uma tolice guardar todo o dinheiro só para que os outros nos chamem de ricos. Os ex-alunos assim escolarizados liam e escreviam bilhetes e cartas para amigos analfabetos que lhes pediam tal ajuda e reproduziam de cor as máximas moralistas aprendidas. Todavia, a escolarização não ia muito além deste limite, conforme pode depreender-se do subseqüente parágrafo.
Mestre Belo foi o professor ambulante que conheci mais de perto e com quem mais convivi porque tinha um filho único de minha idade, Oséas, com quem muito brinquei. Morava ele em Crateús, do mesmo lado da rua onde habitavam meus pais, cinco casas depois da nossa. De estatura avantajada, medindo quase dois metros, Mestre Belo trazia sempre um cachimbo à boca com fragmentos de fumo de corda, ou uma masca deste sob a bochecha. Relatou-me com brio episódio de que fora protagonista ao lado do coadjuvante Mestre Marçal. Este, para demonstrar superioridade, lhe perguntara certa vez: O que é um substantivo? À pergunta Mestre Belo respondera: Não lhe respondo a pergunta, sem que você alterne perguntas e respostas comigo a começar da letra. Pelo visto, a escolarização ministrada por estes professores não chegava às categorias gramaticais morfológicas.
A bem da verdade, diga-se que tais educadores não eram tratados pelo título que aqui se lhes atribui. Cunhei a expressão professores ambulantes para denominar esses heróicos alfabetizadores. Eram eles simplesmente tratados com a denominação de mestres e assim os conhecidos os chamavam de Mestre Belo, Mestre Marçal, Mestre Fulano, Mestre Beltrano. Mesmo porque naquele tempo inexistia a pós-graduação institucionalizada, com cursos de mestrado, doutorado, pós-doutorado. Aos que hoje se encontram matriculados nestes cursos, na área de ciências humanas, e ainda não encontraram tema para monografias, dissertações e teses, aqui deixo uma pista: encontrar e analisar as cartilhas utilizadas pelos professores ambulantes, coletar maiores informações junto às pessoas mais idosas das fazendas que os conheceram e que foram discípulos deles.

ESCOLA E VIDA

As descobertas e invenções não parecem depender muito de elevados títulos acadêmicos e sim da capacidade criativa, interessada e comprometida com a pesquisa. Os cinco exemplos subseqüentes, sem esgotar a longa série deles, servem para ilustrar a afirmação.
Vital Brazil(1865-1950), natural de Minas Gerais, apenas com diploma de graduação em Medicina, sem ostentar elevados títulos de mestrado, doutorado e pós-doutorado, efetuou pesquisa que ultrapassa, em mérito e importância, as produções da maior parte dos detentores das láureas da pós-graduação. Descobriu o soro antiofídico, cujo extraordinário valor científico completa-se com a aplicação a país onde quase trinta mil pessoas morriam vítimas de picadas de serpentes. Fundou, em São Paulo, o Instituto Butantã para pesquisa e produção de contraveneno contra ataques de animais peçonhentos, o Instituto de Higiene, Soroterapia e Veterinária, em Niterói, e exerceu com proficiência a direção do Instituto de Manguinhos, no Rio de Janeiro.
O médico e sanitarista Osvaldo Cruz(1872-1917), natural de São Luis do Paraitinga em São Paulo, mesmo havendo estagiado no Instituto Pasteur de Paris e na Alemanha, não detinha pomposos títulos de pós-graduação. Contudo, mesmo enfrentando ferrenha oposição obscurantista, conseguiu erradicar a malária, a febre amarela e a peste bubônica no Brasil, em boa parte graças ao decidido apoio de Rodrigues Alves, então presidente do país. No Instituto Fiocruz, construído em arquitetura de castelo mourisco reuniu e orientou dinâmicas equipes de pesquisadores, as criou as famosas brigadas de mata-mosquitos para eliminação de focos domiciliares e outros de vetores de doenças.
Charles Robert Darwin(1809-1882) foi escolarizado, de 1818 a 1825, na Anglican Shrewsbury School, escola confessional de Teologia, de nula ou fraca formação científica, onde não se distinguiu como aluno brilhante. Contudo, continua brilhando em Biologia, na qual descobriu muitas espécies biológicas e formulou a teoria do evolucionismo ainda hoje em vigor.
Thomas Alva Edison(1847-1931) figura indubitavelmente como o maior inventor norte-americano de todos os tempos, com o maior número de patentes. Inventou a lâmpada incandescente, com filamento contido no vácuo em bulbo de vidro, para transformação da energia elétrica em luminosa e o fonógrafo, entre outros notáveis feitos. Descobriu o efeito termo-iônico ou a emissão de elétrons em metais aquecidos. Fundou o primeiro laboratório de pesquisa industrial no mundo. Todavia, freqüentou a escola apenas durante cinco anos.
O inglês John Dalton(1766-1844), natural de Eaglesfield, pioneiro da moderna Atomística, descobriu leis ainda hoje figurando nos modernos manuais de Química. Contudo, na escola foi tratado com desdém por conta da congênita incapacidade de perceber a cor vermelha, confundido-a com o preto, numa época em que a humanidade desconhecia inteiramente a protonopsia. Dalton estudou tal disfunção oftalmológica que, em homenagem a ele, traz o nome de daltonismo.
Exemplos da categoria fazem lembrar o adágio latino: Non scholae sed vitae discimus(Não devemos aprender para a escola, mas para a vida). A escola cada vez mais prepara para a escola. Os cursos técnicos de nível médio tornaram-se propedêuticos dos cursos superiores. Em cada esquina, abre-se nova empresa de cursinho garantindo ingresso franco na universidade. Esta não se completa com a conclusão de bacharelado ou licenciatura. Um e outra preparam para o mestrado, o mestrado para o doutorado, o doutorado para o pós-doutorado. Qual desses cursos escolares prepara mesmo para a vida? O melhor tempo da vida, a infância e a adolescência, as pessoas investem na escola, que talvez não apresente o melhor lugar para se viver. E o que virá depois? Talvez a bengala da senectude como último diploma.

UMA APOSTA DE PASCAL

Blaise Pascal(1623-1662), natural de Clermont, na França, teve vida curta e afligida por terríveis cefaléias. Mesmo assim a ele se pode aplicar o epitáfio de Consummatus in brevi explevit tempora multa(Falecido ao cabo de poucos anos realizou trabalhos de muitos). Foi destacado filósofo, antológico escritor, brilhante matemático e físico, ainda hoje ensinado em cursos dessas disciplinas. Vivendo numa época em que os analgésicos eram menos conhecidos e eficazes do que hoje, Pascal esquecia as agudas dores de cabeça que o atormentavam distraindo-se na resolução de difíceis problemas de Matemática. Sua biografia apresenta-se rica em episódios curiosos como este. Porém não é deles que se pretende discorrer aqui, mas sim sobre impressionante episódio vivido no campo religioso. Contudo, para melhor compreensão vale fazer um recuo de quinze séculos a partir da época em que viveu.
No século II do calendário cristão, viveu na Frigia, no presente região da Turquia, Montanus. Este exercia as funções de sacerdote no culto a Cibele, deusa pagã mãe da fertilidade. Converteu-se ao cristianismo, mas, por volta de 172, desenvolveu uma seita herética que perdurou até o século IX, sob a denominação de montanismo. A heresia se encontra descrita na História Eclesiástica de Eusébio de Cesárea(265-340). Montanus introduziu a presença de sacerdotisas em sua seita, permanecendo mais conhecidas Priscilla e Maximilla. Valorizava os êxtases, crises epilépticas, práticas ascéticas de auto-flagelação e situações nas quais os adeptos falavam incompreensíveis algaravias, interpretadas como profecias do Divino Espírito Santo. O movimento carismático hodierno parece assim recuperar algumas práticas da doutrina de Montanus. Em 210, Quintus Septimus Florens Tertullianus(155-260) torna-se o mais destacado adepto e eloqüente defensor do montanismo. Tertuliano fora aquele que observara a respeito das sangrentas perseguições aos cristãos: O sangue dos mártires é semente de cristãos. As práticas ascéticas ganharam tal importância para Tertuliano que ele chegou a proclamar dever o cristão, no momento da morte, entregar a Deus um saco de ossos: o saco representado na própria pele, os ossos no esqueleto dentro dela contido.
Seita semelhante ao montanismo surgiu no século XVII com o holandês Cornelius Otto Jansenius(1585-1638), em sua obra maior, Augustinus(1640). O jansenismo, como ficou conhecida, caracterizava-se pelo moralismo puritano e pela ênfase nas práticas ascéticas e Pascal tornou-se fervoroso adepto dela, em Port-Royal, nela inspirando-se para a formulação de sua célebre aposta.
A aposta(pari) de Pascal se acha exposta em seu livro Pensées(Pensamentos). A aposta reside na incerteza dele sobre o que poderia advir ao homem depois da morte: o nada, pois a morte tudo acabaria para ele, ou alguma forma de sobrevivência feliz ou infeliz? Pascal apostou na sobrevivência e, para que ela fosse feliz, procurou pautar a vida de acordo com os ensinamentos cristãos. Se vencesse a aposta, receberia o paraíso. Se a perdesse, se nada houvesse além da morte, realmente nada teria perdido, pois, a maneira mais feliz de viver neste mundo consiste em comportar-se conforme os ditames evangélicos.

CLAUSTROFOBIA FUNÉREA

Define-se a claustrofobia como o estado psicopatológico em que o paciente teme angustiantemente os lugares fundos, estreitos e apertados. Opõe-se assim à agorafobia, estado mórbido próprio dos que temem exageradamente os lugares abertos e de vastos espaços. Na claustrofobia funérea, o indivíduo fica freqüentemente acometido pelo medo de vir a ser enterrado vivo. Conheci vários casos de claustrofobia funérea. O tema instigava-me interesse e curiosidade, talvez porque padeça deste distúrbio de ansiedade. Omito obviamente nomes por deontológica questão de respeito às pessoas.
Relatou-me um professor universitário do campus avançado de Sousa caso testemunhado pelos mais antigos da cidade. O cortejo fúnebre seguia lentamente acompanhado pelo sacerdote paramentado de negro e por pequena multidão de familiares, amigos e curiosos. Não era costume na época o emprego de veículos motorizados para transporte do caixão ao cemitério. À entrada da necrópole, o ataúde mexeu-se, sua tampa levantou-se e o suposto defunto dele levantou-se protestando contra aqueles que pretendiam enterrá-lo vivo. Foi o suficiente para que os farricocos baixassem o esquife e fugissem assombrados, provocando espanto nos outros componentes do cortejo.
Em minha infância, entre os telegrafistas da RVC(Rede Viação ferroviária Cearense) destacava-se um tocador de saxofone pela rara habilidade no alfabeto de Morse. Não precisava ver pontos e traços na fita que se desenrolava do carretel. Captava, e com absoluta fidelidade, as mensagens pelo ouvido. O exímio telegrafista costumava solicitar com insistência a amigos e familiares: Quando pensarem que eu morri, tragam da penitenciária o mais temível bandido, emprestem-lhe um punhal e paguem-no para esfaquear todo o meu corpo, para que não seja inumado vivo.
No curso ginasial, tive um colega cujo pai figurou como triste protagonista de sepultamento prematuro. O pai detinha o título de propriedade de uma fazenda nas adjacências da cidade onde morava e para onde costumava ir a cavalo por falta de estrada carroçável. Regressando na penumbra do entardecer das costumeiras viagens, deparou-se com um indivíduo caído de bruços, à sua frente, sobre o solo da vereda. Apeou-se do cavalo para prestar-lhe socorro. E qual não foi sua terrificante surpresa ao perceber que o sujeito usava roupas rigorosamente iguais às que ele mesmo vestia. Voltando-lhe a face e frente para cima foi como perceber a própria imagem especular tridimensional. O sujeito estava frio e morto e era exatamente igual a si mesmo. Tomado de pavor com a aterradora visão alucinatória, montou o cavalo, esporando-o e dando-lhe toda a brida em rumo de casa, onde trêmulo relatou a experiência aos familiares. No dia seguinte, o pai do colega amanheceu morto. Alguns anos depois, ao abrirem a gaveta do túmulo para sepultar outro falecido da família, os coveiros encontraram de bruços, com a caveira olhando para baixo, o esqueleto do pai do colega...
O corpo humano, como qualquer outro de complexo animal multicelular, não morre todo ao mesmo tempo. Após a morte cerebral, muitos órgãos continuam vivos, podendo ser transplantados para conforto de doentes que esperam na fila macabras oportunidades, nas quais a desgraça de uns traz a salvação para outros. Os trabalhadores de empresas funerárias convivem diariamente com fatos demonstrativos de que vida vegetativa continua depois da morte cerebral. O crescimento dos cabelos de barbas e bigodes de cadáveres escanhoados serve para exemplificá-los.

DIVAGAÇÕES SOBRE ÉTICA

Hoje, a palavra Ética se encontra no auge da moda. Todos falam sobre ela. Os mais e os menos letrados e até mesmo os excluídos da escola têm algo a dizer sobre ela na ponta da língua. O fato evoca espontaneamente o provérbio traduzido por São Jerônimo: Ex abundantia cordis os loquitur(A boca fala sobre a abundância do coração, isto é, daquilo que existe em demasia no interior da pessoa).
Todavia, em função do contexto histórico, a proverbial abundância do coração admite paradoxal hermenêutica. Em certas situações, essa abundância significa aquilo que a pessoa transborda. Um fato na biografia de Arquimedes de Siracusa serve para ilustrar o caso. Com o coração transbordante de alegria, pela genial descoberta do princípio do empuxo[1], o sábio saiu correndo pelas ruas da cidade gritando repetidamente e a plenos pulmões: Eureka!(Eu descobri!).
Em outras situações, contudo, essa abundância do coração apresenta compreensão oposta, ou seja, significa exatamente falta ou carência. Neste caso, a boca fala muito exatamente daquilo de que o coração carece. Quem fala com insistência sobre água se acha sedento ou sente falta do precioso líquido para a higiene corporal, para a lavoura ou para desalterar rebanhos. Aquele que fala demais sobre alimentos é porque se encontra faminto ou deles não completamente saciado. Portanto, pode-se desconfiar de que a geral facúndia em torno da Ética denuncie apenas uma indigência dela na sociedade e nas relações humanas.
Diante de tamanha exuberância verbal sobre a Ética, talvez não se afigure completamente irrelevante umas ligeiras divagações do autor sobre a matéria.
Como ocorre com os outros, o conceito de Ética pode definir-se por inclusão, de forma positiva ou pelo que ele realmente é. Ou por exclusão, de forma negativa, ou por aquilo que ele não é e com o qual não deve ser confundido. Do ponto de vista didático, recomenda-se o emprego das duas formas de definição.
Na forma includente e positiva, Ética pode definir-se como um valor filosófico, transcendental, desejável, eterno, referente ao bem e à justiça. Obviamente, ao que tudo indica, o homem jamais atingirá este valor em sua plenitude. Isto decorre da própria natureza da Filosofia, por essência crítica, questionadora, reflexiva e evolutiva. A Ética comporta-se assim à semelhança do farol de um porto que se procura, do qual o homem se aproxima, contudo, sem jamais nele ancorar definitivamente.
Em sua forma excludente ou negativa, não se deve confundir a Ética com os costumes, com fatos sociais que juristas e sociólogos convencionaram denominar de mores[2]. Ora, os costumes variam no espaço e no tempo. O que é costume aqui não o é acolá. A monogamia dos países cristãos difere da poligamia dos islâmicos. O que presentemente é costume aqui e agora não o será necessariamente no futuro. Os países cristãos condenavam como imoral a prática do nudismo e do naturismo. Hoje, existem neles muitos recantos onde se pratica o nudismo, como no paraibano recanto de Tambaba.
Em sua forma excludente ou negativa não se deve também confundir a Ética com as tradições. Estas são costumes mais duráveis que se repetem sazonalmente, de forma mais ou menos cristalizada, em determinadas estações ou datas do ano. O carnaval, os festejos juninos, as reisadas exemplificam-nas no caso particular do Brasil. As tradições igualmente não devem ser confundidas com a Ética, pois, algumas delas se antepõem frontalmente ao bem e à justiça. Os bio-éticos reprovam as touradas espanholas, pois elas maltratam e matam touros, sendo frequentemente por estes mortos os toureadores. Nas guerras de espadas ígneas, ocorrentes nas festas juninas de Estância, cidade do estado de Sergipe, participantes saem seriamente queimados e outros dolorosamente chamuscados. Componentes sádicos e masoquistas ressaltam visivelmente tradições vigentes em outros países.
A Ética­­­­­­­­­­ não se deve ainda confundir com o excesso de normas e disposições do moralismo religioso. Entre os Hebreus, o legislador Moisés demonstrou haver percebido bem a distinção entre ambos. Tanto assim que substituiu a multiplicidade de leis do Torah por apenas dez mandamentos gravados nas duas lápides no monte Sinai. Em matéria de síntese, Cristo ultrapassou dez vezes Moisés, ao substituir os mandamentos de Moisés por um só, pelo mandamento de amor. Santo Agostinho de Tagaste, bispo de Hipona, no norte da África, assim respondeu a nobre matrona que lhe perguntara o que deveria fazer para tornar-se santa: Ama et fac quod vis(Ama e fazes o que quiseres).
Além disto, a Ética não se reduz ao moralismo jurídico ou legalismo. Talvez encontre neste seu mais perigoso inimigo. Não deve se atribuir ao acaso a representação da justiça proposta pela iconografia: uma mulher, de vestes talares, com olhos vendados, tendo na mão direita uma balança pensa e na esquerda uma espada. A enorme quantidade de leis do moralismo jurídico faz com que mesmo advogados e juízes não as conheçam todas. E o que dizer do cidadão comum, dos poucos letrados, de quem se exige pleno conhecimento das leis, para os quais a ignorância de tantas leis não funciona como causa atenuante? Porém, há um outro agravante: essa infinidade de leis muda com a mudança e ao sabor dos legisladores de plantão. Notórios são os ardilosos estratagemas a que recorrem advogados para absolver culpados e condenar inocentes. O legalismo jurídico trata a sociedade civil como eterna criança, dependente da inelutável tutela e da pretensa “proteção” do Estado. Sobretudo em países periféricos, a tutela e proteção estatais é muito punitiva e pouco educativa. O autoritarismo jurídico encontra-se magistralmente descrito na Colônia Penal e no Processo de Franz Kafka(1883-1924). Neste, inocente cidadão comum recebe a intimação de um oficial de justiça, comparece perante uma infinidade de autoridades judiciais para terminar recebendo a pena capital, sem que nenhuma delas saiba lhe explicar a razão.
Enfim, a Ética se distingue da Etologia, tratado da Biologia que se ocupa da observação e estudo do comportamento dos animais situados em condições naturais. Distinguindo-se da Ética, a Etologia não parece se opor tanto a ela, como poderia se imaginar em apressado exame, conforme se discutirá rapidamente a seguir.
Os comportamentos agressivos dos animais representam, à primeira vista, os que mais poderiam contrariar a Ética. Há duas formas fundamentais de comportamentos agressivos: os resultantes da agressão inter-específica e os da intra-específica. Na agressão inter-específica, o animal ataca seres vivos pertencentes a outras espécies biológicas, diferentes da sua própria. Por exemplo, o leão ataca o antílope, a raposa a lebre e a galinha, os roedores devastam as hortas e legumes. Ora, esta forma de agressão, por violenta que possa parecer, faz parte da ordem natural das coisas. Pois, animais são consumidores de primeira ordem, que somente podem sobreviver alimentando-se da matéria orgânica fornecida por outros seres vivos. Os consumidores de primeira ordem, herbívoros e frugívoros não podem prescindir dos produtores de energia, os vegetais que consomem, capazes de elaborar matéria viva a partir da reação de fotossíntese, com água, gás carbônico e luz transformados em carboidratos. Porém, o homem, ao se alimentar de frutos e legumes, em nada contraria a Ética. Apenas faz o necessário para não perecer de inanição. Quando um animal mata outro para dele se alimentar, o faz geralmente com aqueles que por fraqueza ou doença se separam do rebanho ou não fogem com superior velocidade. De alguma maneira, dizem os etólogos, o predador estaria prestando assim um serviço à espécie que lhe serve de presa, evitando epidemias para ela ou ajudando-a no processo de seleção natural.
Na agressão intra-específica, o animal ataca outro da mesma espécie. Em condições naturais, esta modalidade de agressão raramente leva à morte ou a ferimentos irrecuperáveis. Ela funciona para preservar a territorialidade e os meios de subsistência dela dependentes, ou para seleção do mais forte e apto para procriação e proteção da prole, fenômeno denominado por Charles Darwin de seleção sexual. O ato de agressão geralmente termina com a fuga do mais fraco ou a manifestação de algum sinal estereotipado de submissão: o cão doméstico que coloca o rabo entre as pernas; o cão silvestre que cuida da prole do outro; o lobo que se deita e exibe a jugular em posição favorável a ser estrangulada pelo vencedor. Em conseqüência, ao denominar Thomas Hobbes(1588-1699) o homem de Homo homini lupus(o homem é o lobo do homem), a injuria fica para o lobo e não para o homem, pois este supera amplamente aquele em matéria de crueldade. Com efeito, o homem promove guerras onde chacina milhões, incluindo pessoas da população civil. Tortura os inimigos com inimagináveis requintes de perversão.
Numa das muitas universidades onde trabalhou o autor destas linhas, professores de Matemática costumavam convidar asperamente a comer a grama do pátio estudantes que faziam perguntas “descabidas” ou que se embaraçavam na resolução de problemas. Lente de Geografia tratava os estudantes de débeis mentais, chegando por isto a ser juridicamente processado. No curso de Filosofia, onde a cadeira de Ética entra na grade curricular e os professores sobressaem na farta loquacidade sobre o assunto, catedrático pouco assíduo recomenda aos alunos perplexos com a omissão a irem reclamar na casa do caralho(sic!). Nele, um outro, doutor e pós-doutor, excede de longe os demais, ao chamar de burros colegas de magistério, alguns dos injuriados bem mais competentes e responsáveis que o injuriante. O caso ilustra bem a moeda corrente em outras universidades periféricas. O lamentável fato revela a triste confusão entre o sábio e a grotesca caricatura deste. O primeiro realmente fala daquilo que existe em abundância no coração, fazendo-o transbordar em palavras. A segunda não passa de mero nominalismo, reprovado por William of Ockham (1285-1347) com a depreciativa denominação de flatus vocis(eructação, arroto, sopro ou flatulência pela boca). Na grotesca caricatura do sábio, a boca falaria exatamente daquilo de que carece o coração.
O filósofo saxônico Friedrich Nietzsche Nietzsche(1844-1900), inquestionavelmente um dos mais influentes pensadores contemporâneos, desenvolveu um conceito de Ética que marcou profundamente filósofos, teólogos, psicólogos, escritores e dramaturgos posteriores. Compara a moralidade apolínea com a dionisíaca. Considera o ressentimento e a resignação como a moral dos fracos, que nada produz de valor, que condena os fortes simplesmente por serem incapazes de igualarem-se a eles ou de superá-los. Sua moral ancora-se na idéia de super-homem(Übermensche) descrito em Assim falou Zaratrustra. A idéia de super-homem foi erroneamente associada ao nazismo. No entanto, para Nietzsche, o super-homem fundamenta-se na teoria da evolução. O homem do porvir seria tão diferente do homem da atualidade, quanto este o é do macaco.
O pensamento ético de Nietzsche oferece o flanco a uma indagação. Em que medida a agressividade e crueldade humanas seriam aprendidas, culturogênicas, logo mutáveis, ou puramente instintivas e permanentes? Estudos antropológicos parecem indicar mais a primeira alternativa. A escola, mantida pela sociedade muito competitiva e pouco cooperativa, como aquela descrita nos episódios anteriores, apenas estaria retro-alimentando a sociedade onde se insere.
[1] Todo corpo imerso em um fluido sofre uma força de baixo para cima igual ao peso do fluido por ele deslocado. Por exemplo, se um barco desloca um metro cúbico(1m3) de água, que pesa uma tonelada, recebe uma força de mil kgf impulsionando-o para cima. Se o peso do barco e de sua carga for inferior a mil kgf, o barco flutua; se for superior, submergirá.
[2] Mores é o nominativo plural do substantivo latino da terceira declinação, mos, moris = costume. Na língua portuguesa também derivam etimologicamente de mos, moris: moral, imoral, amoral, moralismo, morigerado.

JUVENTUDE E VELHICE

Comparam-se muitos provérbios populares a agradáveis fragrâncias de preciosas essências, contidas em pequenos frascos. Efetivamente, em breves formulações, adágios que passam de bocas a ouvidos de pessoas simples encerram profundas lições de sabedoria. É o que se pretende examinar a propósito da juventude e velhice.
De forma sintética e proverbial, o povo valoriza a velhice, ao proferir ditados como estes: Macaco velho não mete a mão em cumbuca. Coco velho é que dá azeite. Qui trop a vecu trop a vu(Quem muito viveu viu o bastante). Obviamente semelhantes adágios valorizadores da terceira idade não se aplicam a todos, pois há aqueles que viveram sem ter vivido, dos quais escrevera o poeta: Quem passou pela vida em brancas nuvens,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espetro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
A quase totalidade das culturas valorizou a acumulada experiência e sabedoria dos mais velhos, tanto assim que Carl Jung(1875-1961), psicólogo suíço fundador da Psicologia Analítica, o introduziu entre os arquétipos. Nações indígenas norte-americanas convocavam conselhos de anciãos para deliberar em momentos de crises. A República Romana conferiu poder legislativo aos senadores. Lembre-se que a palavra senador deriva etimologicamente do substantivo senex, senis, que significa velho, cognata, portanto, de senectude, senil. Como não há regra sem exceções, havia senadores mais jovens, conspiradores como Lucius Sergius Catilina(108-62 ACN) ou mesmo irracionais, como o cavalo Incitatus, consagrado senador por Calígula sob calorosos aplausos de seus apaniguados.
Outros adágios populares valorizam a juventude, como aquele que reza: Papagaio velho não aprende a falar. No mundo dos desportos, todos conhecem que, rapidez dos reflexos e prontidão dos músculos desaparecem à medida que se distanciam da juventude. Por esta razão, mesmo os melhores atletas costumam pendurar as chuteiras, o mais tardar, por volta dos trinta anos. A História das Artes e Ciências oferece convincentes exemplos de jovens que realizaram prodígios que muitos idosos envolvidos na mesma atividade não conseguiram. Jesus, com apenas doze anos deixou abobalhados doutores da lei, escribas e fariseus no templo de Jerusalém. Porém não foi o único caso. Alguns outros, a seguir rapidamente relatados, ilustram a afirmação.
Cinco séculos antes da era cristã, os gregos já conheciam o magnetismo. A descoberta deve-se a um pastor adolescente que, enquanto seu rebanho de ovelhas pastava, observou que um pedaço de magnetita(Fe4O3), talvez o fragmento de um meteorito, por ele encontrado no campo, atraía pregos e outros objetos de ferro.
Quando Napoleão Bonaparte(1789-1815) esteve no Egito, decidiu arrebatar para Paris, além de outras preciosidades faraônicas, o obelisco fincado hoje na Praça da Concórdia. A fina e elevada peça monolítica quadrangular, com a extremidade superior terminada em pirâmide e as quatro faces laterais repletas de hieróglifos, não se partiu na operação graças à advertência de uma criança, e não à de um adulto ou velho mestre-de-obras. Ao levantarem o monumento, as cordas que o suspendiam começaram a ranger, ameaçando se romperem. Então, uma criança gritou: Molhem as cordas! Os operários obedeceram imediatamente ao conselho. Seria o sábio menino filho de algum marujo? Ora, os marinheiros de caravelas, chalupas e outras embarcações movidas à força eólica costumam lançar água sobre as velas para que ventos impetuosos não as estraçalhem.
Nos correntes dias, meninos passam quinau em adultos no domínio de todos os recursos da telefonia celular de última geração. Jovens navegam pela Internet com desembaraço, comunicando-se entre si, escrevendo em blogs, orkuts e e-mails, fazendo circular idéias e pensamentos numa época em que os mass media e os professores persistem em autoritária comunicação vertical e unidirecional que não deixa margem ao diálogo, a não ser o de concordância com o emissor da mensagem.
O francês Évariste Galois(1811-1832) entendia muitíssimo de Matemática e pouquíssimo de esgrima. Tanto assim que foi assassinado em duelo aos 21 anos. Ao morrer, contudo, deixou desenvolvida em Álgebra, a teoria de grupo, que permite a resolução de equações pelos expoentes, como a de quinto grau.
O austríaco Johann Chrysostom Wolfgang Amadeus Mozart(1756-1791), unanimemente considerado como um dos maiores compositores de todos os gêneros da música clássica ocidental já tocava piano e compunha bem aos cinco anos de idade. Aos 13 anos seu genial talento encantou a Europa durante tournée pela Itália. Em Verona, obteve pleno sucesso em rigorosos testes na Academia Filarmônica. Em Milão, depois de submetido a difíceis provas, foi escolhido para escrever a primeira ópera para a estação do carnaval. O sucesso o acompanhou por Bolonha e Florença. Em Roma, escutou o coro da Capela Sistina executando o famoso Miserere de Gregório Allegri(1582-1651). Até então, ninguém tinha a partitura do Miserere, a não ser o coro da Capela Sistina. Contudo, depois de escutá-lo uma vez, Mozart a escreveu sem erro algum. Escreveu e regeu as três primeiras apresentações da ópera Mitridate ré di Ponto(Mitrídates, rei de Pontus) no Régio Ducal Teatro de Milão.
Com simplicidade e sem presunção, em contraste a muitos acadêmicos pedantes, o povo não enche a boca com dialética, mesmo porque talvez nunca tenha lido Heráclito de Éfeso(540-480), Georg Wilhelm Friedrich Hegel(1770-1831), Karl Marx(1818-1883). Porém, demonstra pensar dialeticamente. Pois, examina ambos os lados da questão, evitando tornar absolutas as respostas para um universo múltiplo e em permanente mutação.

DISTRAÇÕES DE CIENTISTAS

Em outro artigo desta coluna jornalística, apresentaram-se exemplos de cientistas distraídos. Explicou-se que neles o desligamento da maioria dos objetos do meio circundante significa alta e profunda concentração no objeto de seus estudos. Adicionam-se aqui mais outros nomes para demonstrar que não se trata de casos isolados de tal fenômeno na biografia de sábios e cientistas.
André Marie Ampère(1775-1826), físico natural de Lyon na França, desenvolveu a teoria do eletro-magnetismo, o primeiro eletro-ímã, inventou o galvanômetro e o primeiro telégrafo, deixando o próprio nome ligado à denominação da unidade de corrente elétrica no sistema MKS. No horário da refeição, Ampère deixava momentaneamente o laboratório e se encaminhava para a própria residência. Batia à porta, sendo atendido pela governanta, muito míope. Esta não o reconhecia, considerando-o um estranho a quem dizia: Monsieur Ampère não se encontra em casa. Ampère afastava-se pelas ruas, absorto em suas reflexões, para somente depois lembrar-se que era o próprio Ampère, o dono da casa e patrão da governanta. Criava, também, dois gatos de estimação, para os quais tinha que abrir freqüentemente a porta do laboratório quando eles miavam. A fim de eliminar tais interrupções no trabalho intelectual, Anpère solicitou a um carpinteiro que fizesse duas aberturas na parte inferior da porta, uma maior para o gato maior e uma menor para o gato menor. A quem o carpinteiro observou: Mas, Monsieur Ampére, uma única porta maior é suficiente: por onde passa um gato grande também passa um pequeno...
O casal de químicos, Pierre Curie(1859-19060), natural de Paris, e Maria Sklodowska(1867-1934), natural de Warsaw, concentraram-se na pesquisa de elementos radioativos, descobrindo o rádio e o polônio. Para obtenção do elemento, procederam fazendo o aquecimento da pechblenda. Contudo, subestimaram a quantidade de lenha necessária para o procedimento. Para na deixar inconcluso o processo, Maria ficou ao forno, enquanto Pierre arrastava móveis e arrancava o assoalho da casa para queimá-los. Esquecido de alimentar-se exausto de cansaço, Pierre desfaleceu. De tão concentrada na pesquisa, Maria não percebeu o desmaio do esposo, vendo sozinha, pela primeira vez, o aparecimento do metal radioativo.

CIENTISTAS DISTRAÍDOS

A História das Ciências registra hilários episódios na biografia de alguns cientistas, dos quais se recordam alguns aqui. Sir Isaac Newton(1642-1727), natural de Lincolnshire na Inglaterra, destaca-se entre os maiores físicos. Entre outros brilhantes feitos, descobriu a lei da gravitação universal, a composição da luz branca a partir da fusão de todas as cores do espectro, demonstrada com um simples engenho conhecido nos laboratórios sob a denominação de disco de Newton, disco de papelão com secções pintadas nas diversas cores: quando parado, os cones de cores aparecem a olhos claros; posto em movimento de rotação, as cores desaparecem, tornando-se o círculo completamente branco. Também brilhou em Matemática descobrindo o Cálculo Diferencial e Integral, ao mesmo tempo, mas independentemente do matemático e filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibiniz. Ao envolver-se em suas descobertas, Newton parecia esquecer tudo em volta de si. Certa vez, esqueceu de alimentar-se. Quando a fome apertou-lhe as entranhas, teve a idéia de cozinhar um ovo. Encaminhou-se ao fogão, com o ovo numa das mãos e o relógio para marcar o tempo de cozimento na outra. Acendeu o fogo, colocou a chaleira com água sobre a chama. Porém, quando a água entrou em ebulição, ao invés de nela mergulhar o ovo, dentro dela depositou o relógio.
James Prescott Joule(1818-1889), natural de Lancashire na Inglaterra, descobriu que a energia liberada por um condutor qualquer – lâmpada incandescente, transformador, motor elétrico - equivale a E = I2R, onde E = energia, I = intensidade da corrente elétrica, R = resistência do condutor. Por exemplo, se a intensidade é medida em ampères e a resistência em ohms, a energia se expressará em joules. Seu nome ficou, portanto, associado à denominação da energia no sistema de medidas MKS. Descobriu ainda o equivalente mecânico da caloria – quantidade de calor necessário para elevar um grama de água de um grau Celsius – como sendo igual a 4,18J. Para este último feito, viveu curioso episódio ao lado da esposa levada para lua de mel. Logo após as núpcias, Joule conduziu a esposa para a lua de mel na cachoeira de Niágara. Lá chegando, substituiu o natural interesse pela esposa pela veemente curiosidade de saber o que estava acontecendo com a energia das diluviais águas em queda da cachoeira, mecanicamente calculada por E = mgh – onde E = energia, m = massa da água, g = aceleração da gravidade(9,8ms2), h = altura da queda em metros. Assumiu a hipótese de que essa fabulosa energia estava se transformando em calor. A maneira escolhida para verificar tal hipótese consistiu em verificar as temperaturas das águas antes e depois da queda. Portanto, entregou um termômetro à mulher, solicitando-lhe que o mergulhasse na água, determinando-lhe a temperatura da mesma depois da queda, na parte inferior do rio. Ele mesmo ficou fazendo o mesmo trabalho em cima, na parte superior do rio, antes da queda.
André Marie Ampère(1775-1826), físico natural de Lyon na França, desenvolveu a teoria do eletro-magnetismo, o primeiro eletro-ímã, inventou o galvanômetro e o primeiro telégrafo, deixando o próprio nome ligado à denominação da unidade de corrente elétrica no sistema MKS. No horário da refeição, Ampère deixava momentaneamente o laboratório e se encaminhava para a própria residência. Batia à porta, sendo atendido pela governanta, muito míope. Esta não o reconhecia, considerando-o um estranho a quem dizia: Monsieur Ampère não se encontra em casa. Ampère afastava-se pelas ruas, absorto em suas reflexões, para somente depois lembrar-se que era o próprio Ampère, o dono da casa e patrão da governanta. Criava, também, dois gatos de estimação, para os quais tinha que abrir freqüentemente a porta do laboratório quando eles miavam. A fim de eliminar tais interrupções no trabalho intelectual, Anpère solicitou a um carpinteiro que fizesse duas aberturas na parte inferior da porta, uma maior para o gato maior e uma menor para o gato menor. A quem o carpinteiro observou: Mas, Monsieur Ampére, uma única porta maior é suficiente: por onde passa um gato grande também passa um pequeno...
O casal de químicos, Pierre Curie(1859-19060), natural de Paris, e Maria Sklodowska(1867-1934), natural de Warsaw, concentraram-se na pesquisa de elementos radioativos, descobrindo o rádio e o polônio. Para obtenção do elemento, procederam fazendo o aquecimento da pechblenda. Contudo, subestimaram a quantidade de lenha necessária para o procedimento. Para na deixar inconcluso o processo, Maria ficou ao forno, enquanto Pierre arrastava móveis e arrancava o assoalho da casa para queimá-los. Esquecido de alimentar-se exausto de cansaço, Pierre desfaleceu. De tão concentrada na pesquisa, Maria não percebeu o desmaio do esposo, vendo sozinha, pela primeira vez, o aparecimento do metal radioativo.
Observe-se, contudo, que aparentes distrações dos cientistas revelam elevada e intensa concentração no objeto de suas pesquisas. Com efeito, os psicólogos distinguem dois tipos de atenção. A atenção difusa, típica das crianças e animais jovens, é fugaz, dispersa e veloz, mudando com a mudança dos objetos que passam momentaneamente pelo campo visual ou ao alcance dos outros sentidos. O caso extremo se encontra em crianças hiper-ativas, altamente buliçosas e irrequietas. Já a atenção concentrada, própria dos adultos, fixa-se e investe no exame de determinado objeto. O caso extremo situa-se aqui no episódio observado pela escrava trácia ao sorrir do filósofo que, de tanto contemplar o firmamento, terminou caindo no poço.

PROFUNDIDADE E SIMPLICIDADE

Como poderia parecer à primeira vista, em Estilística, a simplicidade não se opõe à profundidade, e sim à obscuridade. Ao contrário, a simplicidade funciona como chave de cúpula da desejável profundidade. Assim parece haverem entendido os grandes educadores da História.
O objetivo racional de quem fala ou escreve consiste em se fazer compreendido por ouvintes ou leitores. Quem não deseja, antes e acima de tudo ser por eles compreendido, agiria logicamente ficando calado ou deixando em branco o papel, ociosa a caneta ou em branco a tela do computador. E, para que a compreensão de ouvintes ou leitores se obtenha, os bons educadores utilizam recursos pedagógicos apropriados.
Filósofos gregos, bem anteriores a Cristo, já conheciam a máxima didática tomada para esteio da epistemologia de John Locke(1632-1704): Nihil est in intellectu quod prius non fuerit in sensubus(Nada existe no intelecto que não tenha existido primeiro nos sentidos). Donde resulta para o bom comunicador a importância de recorrer aos conhecimentos empíricos dos destinatários de sua mensagem. Portanto, transmite o ainda desconhecido comparando-o com o já conhecido, mostrando as semelhanças e diferenças entre um e outro. Para paraibano analfabeto que jamais viu zebra, não adianta muito afirmar que ela é um solípede de taxionomia Equus grevyi. Recomenda-se apelar para o jumento que ele cavalga e vê todos os dias e dizer: a zebra é um animal africano semelhante ao jumento em tamanho e formato, mas apresentando pelagem branca listrada de preto. A explicação melhora com a exibição de desenho ou fotografia da zebra e se completaria mostrando-a no circo ou jardim zoológico. Os pedagogos chineses costumam afirmar: uma figura fala mais do que mil palavras e a realidade fala mais do que mil figuras.

UNIVERSIDADE DE PANCRISOS

Pancrisos impõe-se como país onde dominam o ouro e tudo aquilo que nele possa se converter. Seus habitantes bem sucedidos orgulham-se do substantivo ou adjetivo pátrio, crisófilo, que lhes dá nome. Pois, ali o dinheiro tudo resolve. Compra triunfos e ovações. Vence eleições e campeonatos. Suborna o poder estatal. Torna a justiça seu fiel lacaio. Os desprovidos de amarelo metal, párias da sociedade, recebem o tratamento reservado a criminosos e psicopatas. Os governantes vão gradativamente entregando a posse e gestão dos serviços públicos a particulares endinheirados. Celebram o feito como a privatização globalizante, estágio final e feliz do desenvolvimento social humano. No entanto, ao invés de abolirem impostos e tributos, por serviços que perdem a gratuidade, aumentam-nos depois de cada privatização.
Os crisófilos pensam e agem como se a escola particular fosse a mais excelente forma de educação. Da creche à universidade, abrem nova escola em cada esquina. Algumas universidades do gênero, orgulhosas do título de empresas, possuem imponentes memoriais e museus cuja finalidade maior consiste em glorificar os empresariais fundadores. As paredes revestem-se de fotografias suas em close-up. Objetos por eles utilizados assumem grande importância: a caneta com que um deles assinou o primeiro cheque; o chapéu de feltro com três berloques de outro; o balandrau do reitor; diferentes modelos de diplomas; menções de honra a alunos que pagam as prestações com pontualidade.
Nas universidades de Pancrisos, os alunos terminam rapidamente os cursos e recebem diplomas, desde que paguem as mensalidades sem atraso. Tal rapidez deve-se ao fato de que nelas inexistem greves de professores ou funcionários. Os diretores demonstram rara eficácia em identificar eventuais rebeldes causadores de tais transtornos e de substituí-los por servidores inquestionavelmente dóceis. Aliás, os crisófilos vêem com suspeição as greves e movimentos reivindicatórios em quaisquer outros setores da sociedade. Por outro lado, professores que espantam alunos malandros com ameaças de reprovações estão condenados ao haraquiri compulsório, pois, merece exemplar punição ameaçar quem tem sucesso com dinheiro. Quem demonstra capacidade em obtê-lo, ipso facto, demonstra sabedoria e capacidade de aprender qualquer coisa.
Nas universidades de Pancrisos, os educadores podem se classificar em duas categorias. Na categoria dos cavaleiros encontram-se aqueles que detestam visceralmente ensinar, abominam salas de aula, laboratórios e bibliotecas, fugindo dos alunos. Deleitam-se no dolce far niente de postos de chefia e assessorias donde ditam normas de como se deve ensinar. Envolvem-se na competição e agressividade para ocupação de tais postos. Porém, não há cavaleiros sem cavalos, o que introduz a segunda categoria de educadores. Para estes sobram as aulas e os alunos.
Na segunda categoria, os educadores devem mostrar serviço, fazer algo visível no ensino, pesquisa e extensão, sob pena de terem comprometida a própria carreira acadêmica. No ensino, entendem demonstrar tanto mais profundidade quanto menos os alunos compreendam o assunto ministrado na aula. Na pesquisa, a profundidade se encontra na razão direta da concordância com os autores arvorados à crista da moda. O trabalho assume maior valor se for escrito em língua estrangeira, sobretudo numa que os discentes ignorem. Na extensão, alguns finalizam os trabalhos com o lançamento da própria candidatura a vereador. Se perdem o pleito, o que geralmente acontece, pelo menos ficam alforriados do ensino, da pesquisa e da extensão durante o curto período da campanha. No ensino, pesquisa e extensão, a mensagem subliminar, implícita e mais forte que passam aos alunos exalta e consagra o individualismo e o liberalismo econômico como pedras angulares da sociedade ideal. Pancrisos gerou sua universidade e esta reproduz fielmente Pancrisos.

CAVALOS E JUMENTOS

Elegante cavalo, renomado catedrático de universidade eqüina, ostentava com orgulho elevados diplomas e títulos acadêmicos de sua profissão: no lombo, a sela marchetada de reluzentes estrelas metálicas, dentro da boca, a brida de ferro em forma de ômega, presa às alças das rédeas de resistente couro a serem governadas pelo cavaleiro, cabresto de cordas de agave e demais arreios de cavalariças de primeira qualidade. Nos cursos de bacharelado e licenciatura o trabalho do catedrático consistia em ensinar jovens jumentinhos a sair de João Pessoa e chegar a Campina Grande, especialidade na qual elaborara tese de livre docência. Há muitos anos vinha exercendo o magistério nessa única disciplina, mesmo porque ignorava as restantes.
Na aula inaugural de cada período letivo, o catedrático de coudelaria dedicava breve alocução a seus atentos discípulos, calouros jumentinhos, inexperientes em uso de bússolas e astrolábios, em observação de placas sinalizadoras de rodovias, para efeito de orientação geográfica.
- Não é difícil aprender a chegar em Campina Grande, dizia o docente de haras. Basta-lhes que me sigam, correndo quando corro, parando enquanto paro a fim de comer, beber e repousar.
Dito isto, o cavalo galopava a rédeas soltas, esquecendo de que as pernas dos jumentinhos são bem mais curtas, tornando-os incapazes de acompanhá-lo em tal velocidade. Bem antes de chegarem ao primeiro anel viário nenhum jumento aprendiz via mais o cavalo preceptor. Abandonados pelo mestre, alguns jumentos dobraram à esquerda, encaminhando-se para os estados de Pernambuco, Alagoas ou Sergipe. Outros se desviaram para a direita, tomando o destino do Rio Grande do Norte, Ceará ou Piauí. Somente poucos, por mero acaso e não por méritos do instrutor, palmilharam pela pista intermediária atingindo Campina Grande. O catedrático exprobrou com veemência o fracassado desempenho dos jumentos não encontrados em Campina Grande. Esqueceu que estes habitualmente comem jornais velhos nos monturos enquanto não estão puxando pesadas carroças, enquanto ele próprio se alimenta de fina alfafa e feno, usufruindo privilegiada sinecura. Ignorou importante lição pedagógica. Substancial parcela do fracasso escolar cabe ao professor. Ora, ensinar consiste em fazer alguém aprender, do mesmo modo que vender consiste em fazer alguém comprar.

POLÍTICA VERSUS POLITICAGEM

Política é uma das palavras mais empregadas no vernáculo. Os lexicólogos lhe atribuem diversos significados. O magistral Aurélio, por exemplo, enumera e define dez verbetes para a palavra. Pode significar a ciência dos fenômenos referentes ao Estado, oferecendo cursos de graduação, mestrado e doutorado. Pode definir-se como a arte de bem governar os povos, sendo considerado bom estadista o governante que assim procede. Emprega-se também o termo para designar o conjunto de objetivos e estratégias que constituem determinado programa de ação governamental, condicionando-lhe a execução. Emprega-se ainda para denominar habilidade no trato das relações humanas em busca dos resultados desejados e que não são necessariamente estatais. Diz-se assim que um bom líder de grupo é aquele capaz de envolver a participação de todos os membros na formulação e na execução dos objetivos. Verbetes como esses procuram definir a política por seu aspecto nobre e desejável.
Porém, existe também uma acepção ignóbil e indesejável para política, pejorativamente confundida com politicagem, politiquice ou politicalha, recebendo seus inescrupulosos profissionais as denominações de politiqueiros, politicalhos, politicalhões. Caracteriza-se pelo uso e abuso da astúcia, do ardil, do artifício e da esperteza para ludibriar os outros, postos a serviço dos interesses pessoais em detrimento dos sociais. Com o cinismo dos sofistas mais radicais e interlocutores dos Diálogos de Platão, o politiqueiro está convencido de que o poder e o dinheiro tudo resolve: corrompe os magistrados dos tribunais, que deveriam defender a justiça, suborna ministros da religião para celebrar apoteóticas liturgias de ação de graças. Recebe rasgados encômios dos comparsas e entusiasmados aplausos das multidões. Deploravelmente, O Brasil é pródigo em tristes exemplos desta natureza.
Etimologicamente, política deriva do vocábulo grego polis, que significa cidade, sendo, portanto, cognato de metrópole(cidade modelo), necrópole(cidade dos mortos, cemitério), Acrópole(cidade do alto), Petrópolis(cidade de Pedro). Em acepção etimológica, política equivale à cidadania e se aplica a todos aqueles que sabem viver bem em cidades ou sociedades, tanto a governantes quanto a súditos. Políticos são tanto os governantes que gerenciam bem os recursos públicos - não a serviço de seus mesquinhos interesses pessoais mas em benefício de todos – quanto governados, cônscios de seus deveres e direitos em relação a governantes e a qualquer outro governado.
Onde falta política em sentido nobre, o maior desrespeita o menor. Isto não ocorre apenas em termos de estatura e sistema muscular. Quem anda em transporte atropela o pedestre; a motocicleta colide na bicicleta e o automóvel em ambas. O homem vilipendia a mulher. O adulto maltrata crianças e idosos, o branco o de cor. E, o que é mais grave, educadores, de quem se esperaria conhecer e viver a cidadania em maior intensidade, insultam alunos e estudantes. Os doutores contemplam com desprezo os mestres. Mestres olham de soslaio os simplesmente graduados. Uns e outros zombam dos analfabetos e do saber popular. Em qualquer lugar reina e impera plenipotenciária a pirâmide do autoritarismo com seus labirintos de organogramas, na ignorância de que todo poder emana do povo, em nome proveito deste deve exercer-se, pois é ele carrega o esmagador peso dessa figura geométrica, contribuindo a tempo e hora, com onerosos impostos, sob ameaça e pena de severas punições.
Como lenitivo resta-nos a esperança de que os comportamentos políticos evoluam de sua forma ignóbil para a nobre. Ou, conforme propusera o Zaratustra de Nietzsche(1844-1900), que o homem do porvir se distinga tanto do homem do presente como este se distingue do macaco. Oxalá tal esperança seja a proverbial e otimista de quem espera sempre alcança, não aquela outra pessimista de quem espera sempre cansa....