quarta-feira, 19 de novembro de 2008

UMA APOSTA DE PASCAL

Blaise Pascal(1623-1662), natural de Clermont, na França, teve vida curta e afligida por terríveis cefaléias. Mesmo assim a ele se pode aplicar o epitáfio de Consummatus in brevi explevit tempora multa(Falecido ao cabo de poucos anos realizou trabalhos de muitos). Foi destacado filósofo, antológico escritor, brilhante matemático e físico, ainda hoje ensinado em cursos dessas disciplinas. Vivendo numa época em que os analgésicos eram menos conhecidos e eficazes do que hoje, Pascal esquecia as agudas dores de cabeça que o atormentavam distraindo-se na resolução de difíceis problemas de Matemática. Sua biografia apresenta-se rica em episódios curiosos como este. Porém não é deles que se pretende discorrer aqui, mas sim sobre impressionante episódio vivido no campo religioso. Contudo, para melhor compreensão vale fazer um recuo de quinze séculos a partir da época em que viveu.
No século II do calendário cristão, viveu na Frigia, no presente região da Turquia, Montanus. Este exercia as funções de sacerdote no culto a Cibele, deusa pagã mãe da fertilidade. Converteu-se ao cristianismo, mas, por volta de 172, desenvolveu uma seita herética que perdurou até o século IX, sob a denominação de montanismo. A heresia se encontra descrita na História Eclesiástica de Eusébio de Cesárea(265-340). Montanus introduziu a presença de sacerdotisas em sua seita, permanecendo mais conhecidas Priscilla e Maximilla. Valorizava os êxtases, crises epilépticas, práticas ascéticas de auto-flagelação e situações nas quais os adeptos falavam incompreensíveis algaravias, interpretadas como profecias do Divino Espírito Santo. O movimento carismático hodierno parece assim recuperar algumas práticas da doutrina de Montanus. Em 210, Quintus Septimus Florens Tertullianus(155-260) torna-se o mais destacado adepto e eloqüente defensor do montanismo. Tertuliano fora aquele que observara a respeito das sangrentas perseguições aos cristãos: O sangue dos mártires é semente de cristãos. As práticas ascéticas ganharam tal importância para Tertuliano que ele chegou a proclamar dever o cristão, no momento da morte, entregar a Deus um saco de ossos: o saco representado na própria pele, os ossos no esqueleto dentro dela contido.
Seita semelhante ao montanismo surgiu no século XVII com o holandês Cornelius Otto Jansenius(1585-1638), em sua obra maior, Augustinus(1640). O jansenismo, como ficou conhecida, caracterizava-se pelo moralismo puritano e pela ênfase nas práticas ascéticas e Pascal tornou-se fervoroso adepto dela, em Port-Royal, nela inspirando-se para a formulação de sua célebre aposta.
A aposta(pari) de Pascal se acha exposta em seu livro Pensées(Pensamentos). A aposta reside na incerteza dele sobre o que poderia advir ao homem depois da morte: o nada, pois a morte tudo acabaria para ele, ou alguma forma de sobrevivência feliz ou infeliz? Pascal apostou na sobrevivência e, para que ela fosse feliz, procurou pautar a vida de acordo com os ensinamentos cristãos. Se vencesse a aposta, receberia o paraíso. Se a perdesse, se nada houvesse além da morte, realmente nada teria perdido, pois, a maneira mais feliz de viver neste mundo consiste em comportar-se conforme os ditames evangélicos.

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