quarta-feira, 19 de novembro de 2008

JUVENTUDE E VELHICE

Comparam-se muitos provérbios populares a agradáveis fragrâncias de preciosas essências, contidas em pequenos frascos. Efetivamente, em breves formulações, adágios que passam de bocas a ouvidos de pessoas simples encerram profundas lições de sabedoria. É o que se pretende examinar a propósito da juventude e velhice.
De forma sintética e proverbial, o povo valoriza a velhice, ao proferir ditados como estes: Macaco velho não mete a mão em cumbuca. Coco velho é que dá azeite. Qui trop a vecu trop a vu(Quem muito viveu viu o bastante). Obviamente semelhantes adágios valorizadores da terceira idade não se aplicam a todos, pois há aqueles que viveram sem ter vivido, dos quais escrevera o poeta: Quem passou pela vida em brancas nuvens,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espetro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
A quase totalidade das culturas valorizou a acumulada experiência e sabedoria dos mais velhos, tanto assim que Carl Jung(1875-1961), psicólogo suíço fundador da Psicologia Analítica, o introduziu entre os arquétipos. Nações indígenas norte-americanas convocavam conselhos de anciãos para deliberar em momentos de crises. A República Romana conferiu poder legislativo aos senadores. Lembre-se que a palavra senador deriva etimologicamente do substantivo senex, senis, que significa velho, cognata, portanto, de senectude, senil. Como não há regra sem exceções, havia senadores mais jovens, conspiradores como Lucius Sergius Catilina(108-62 ACN) ou mesmo irracionais, como o cavalo Incitatus, consagrado senador por Calígula sob calorosos aplausos de seus apaniguados.
Outros adágios populares valorizam a juventude, como aquele que reza: Papagaio velho não aprende a falar. No mundo dos desportos, todos conhecem que, rapidez dos reflexos e prontidão dos músculos desaparecem à medida que se distanciam da juventude. Por esta razão, mesmo os melhores atletas costumam pendurar as chuteiras, o mais tardar, por volta dos trinta anos. A História das Artes e Ciências oferece convincentes exemplos de jovens que realizaram prodígios que muitos idosos envolvidos na mesma atividade não conseguiram. Jesus, com apenas doze anos deixou abobalhados doutores da lei, escribas e fariseus no templo de Jerusalém. Porém não foi o único caso. Alguns outros, a seguir rapidamente relatados, ilustram a afirmação.
Cinco séculos antes da era cristã, os gregos já conheciam o magnetismo. A descoberta deve-se a um pastor adolescente que, enquanto seu rebanho de ovelhas pastava, observou que um pedaço de magnetita(Fe4O3), talvez o fragmento de um meteorito, por ele encontrado no campo, atraía pregos e outros objetos de ferro.
Quando Napoleão Bonaparte(1789-1815) esteve no Egito, decidiu arrebatar para Paris, além de outras preciosidades faraônicas, o obelisco fincado hoje na Praça da Concórdia. A fina e elevada peça monolítica quadrangular, com a extremidade superior terminada em pirâmide e as quatro faces laterais repletas de hieróglifos, não se partiu na operação graças à advertência de uma criança, e não à de um adulto ou velho mestre-de-obras. Ao levantarem o monumento, as cordas que o suspendiam começaram a ranger, ameaçando se romperem. Então, uma criança gritou: Molhem as cordas! Os operários obedeceram imediatamente ao conselho. Seria o sábio menino filho de algum marujo? Ora, os marinheiros de caravelas, chalupas e outras embarcações movidas à força eólica costumam lançar água sobre as velas para que ventos impetuosos não as estraçalhem.
Nos correntes dias, meninos passam quinau em adultos no domínio de todos os recursos da telefonia celular de última geração. Jovens navegam pela Internet com desembaraço, comunicando-se entre si, escrevendo em blogs, orkuts e e-mails, fazendo circular idéias e pensamentos numa época em que os mass media e os professores persistem em autoritária comunicação vertical e unidirecional que não deixa margem ao diálogo, a não ser o de concordância com o emissor da mensagem.
O francês Évariste Galois(1811-1832) entendia muitíssimo de Matemática e pouquíssimo de esgrima. Tanto assim que foi assassinado em duelo aos 21 anos. Ao morrer, contudo, deixou desenvolvida em Álgebra, a teoria de grupo, que permite a resolução de equações pelos expoentes, como a de quinto grau.
O austríaco Johann Chrysostom Wolfgang Amadeus Mozart(1756-1791), unanimemente considerado como um dos maiores compositores de todos os gêneros da música clássica ocidental já tocava piano e compunha bem aos cinco anos de idade. Aos 13 anos seu genial talento encantou a Europa durante tournée pela Itália. Em Verona, obteve pleno sucesso em rigorosos testes na Academia Filarmônica. Em Milão, depois de submetido a difíceis provas, foi escolhido para escrever a primeira ópera para a estação do carnaval. O sucesso o acompanhou por Bolonha e Florença. Em Roma, escutou o coro da Capela Sistina executando o famoso Miserere de Gregório Allegri(1582-1651). Até então, ninguém tinha a partitura do Miserere, a não ser o coro da Capela Sistina. Contudo, depois de escutá-lo uma vez, Mozart a escreveu sem erro algum. Escreveu e regeu as três primeiras apresentações da ópera Mitridate ré di Ponto(Mitrídates, rei de Pontus) no Régio Ducal Teatro de Milão.
Com simplicidade e sem presunção, em contraste a muitos acadêmicos pedantes, o povo não enche a boca com dialética, mesmo porque talvez nunca tenha lido Heráclito de Éfeso(540-480), Georg Wilhelm Friedrich Hegel(1770-1831), Karl Marx(1818-1883). Porém, demonstra pensar dialeticamente. Pois, examina ambos os lados da questão, evitando tornar absolutas as respostas para um universo múltiplo e em permanente mutação.

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