O capitalismo dispõe de estratagemas para transformar em aliados indivíduos e movimentos sociais que se insurgiram contra o consumismo exacerbado que o caracteriza. Entre eles se destacam a atribuição de status, a cooptação e a recuperação.
Na atribuição de status, persuade as pessoas e organizações que serão tanto mais importantes e superiores quanto mais sofisticados forem os objetos possuídos em qualquer gênero. Em telefonia celular o indivíduo que somente tem frivolidades a dizer acredita superar em sabedoria todos aqueles que não possuem telefone igual ou superior ao seu que acumula as funções de calculadora, relógio e máquina fotográfica. Quem atropela pedestres e colide em ciclistas, ao volante de um carrão automático provido de ar condicionado, air-bags, televisão e som ensurdecedor, crê superar em ética quem se locomove a pé, em coletivos ou em veículos antigos.
Na cooptação, parte-se do pressuposto de que os líderes se opõem ao consumismo porque não dispõem de poder aquisitivo para fazê-lo e por secreta inveja daqueles que o exercitam. Os mantenedores do sistema promovem, então, esses frustrados líderes a cargos bem remunerados, fundamentando a estratégia em aforismos do gênero: Ninguém pode falar com a boca cheia. Ninguém serra o galho da elevada árvore no qual se acha encarapitado. Podendo agora consumir fartamente, desmoralizam-se os falsos líderes ou estes passam da condição de contestadores à de defensores do consumismo.
Na recuperação, a estratégia varia conforme os contestadores sejam mortos ou vivos. No primeiro caso, o sistema, depois de algum tempo, enaltece ou mesmo diviniza aqueles que perseguiu, torturou e assassinou. É o caso de Cristo, com o cortejo de renas e papais Noel postos a serviço do consumismo natalino. De Joaquim José da Silva Xavier, enforcado e esquartejado, para posteriormente ser transformado em herói nacional com feriado comemorativo no dia 21 de abril. No caso dos vivos, o sistema massifica símbolos e objetos artesanais contestadores, produzindo-os em série e comercializando-os em larga escala. Tais produtos tornam-se moda corrente entre pessoas ignorantes, diluindo-se assim a original força contestadora e incrementando ainda mais o consumismo. Foi o que aconteceu com o movimento de contracultura hippy, nas décadas de 60 e 70, e com o posterior movimento punk.
Todavia, não se pode prever o que tal reciclagem da contestação venha a ocasionar: simples mudanças ou transformações? Com efeito, quem ocupa a supremacia tem o poder de tomar e impor decisões. No entanto, historicamente tem se manifestado impotente para controlar e determinar o que venha futuramente a acontecer por conta e força de tais decisões.
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