Nas mudanças, a realidade individual ou social varia apenas superficial e acidentalmente. As mudanças podem se manifestar, por exemplo, no indivíduo que, recorrendo à pintura artificial, muda a cor dos cabelos a cada semana; em plano social, na telefonia celular que passa sucessivamente da TIM para CLARO, para OI.
Nas transformações, a realidade individual ou social varia profunda e substancialmente. Exemplificam-nas, em plano individual, a primeira e a segunda dentição, as variações comportamentais que se sucedem da infância para a puberdade, adolescência, juventude e senectude; em plano social, na economia que passa da gestão individualista, autoritária e competitiva para a cooperativista, verdadeiramente democrática, com participação de todos os trabalhadores nas decisões e nos lucros.
Nas mudanças, as coisas variam nas aparências, mas não na essência, mudam enganosamente para continuarem as mesmas. Já nas transformações, as realidades passam a ser realmente outras, como no gelo ao virar líquido e este a vapor, na estrela substituída por um buraco negro. No entanto, as mudanças podem trazer germens de transformações que eclodem a olhos vistos nos assim denominados saltos qualitativos.
Os saltos qualitativos e as transformações por eles reveladas se sucedem com rapidez muito maior no plano individual do que no social. Nos indivíduos, em menos de cem anos elas já se completaram. Nas sociedades, elas se operam em milênios. A lição vale para os apressados que concluem que as transformações sociais deixaram definitivamente de acontecer simplesmente porque delas eles não são testemunhas. Para eles vale lembrar que a maioria das pessoas nasce e morre sem ver o cometa de Halley, cujo período completa-se apenas de 76 em 76 anos.
Outro dado histórico que leva pessoas a desacreditarem em futuras transformações nas sociedades consiste nas aparentes transformações sociais que realmente não passaram de meras mudanças. Esperança em transformações sociais profundas acompanhou a visível e crescente participação da mulher nas políticas estatais. Os pacifistas esperavam que guerras não seriam declaradas por mães dos homens. Ledo engano. A inglesa Margaret Hilda Thatcher, primeira mulher européia a tornar-se ministra de Estado, não hesitou em fazer o que alguns homens sensatos não teriam feito: a macabra chacina dos argentinos, em 1982, nas Ilhas Malvinas, castigando duramente aliados na guerra contra o Iran, em1980. Os Estados Unidos da América do Norte elegeram Barack Obama como vigésimo quinto presidente. Os quarenta e quatro anteriores foram brancos. Somente agora desponta o primeiro de cor. Trata-se de mudança ou transformação? Destaque-se que, nesse país, até a metade do recente século XX, pessoas de cor eram excluídas de transportes públicos e universidades. Começaram timidamente a aparecer na publicidade de produtos culinários e em papéis secundários no cinema, como transportadores de liteiras, com ênfase na condição de escravas. Em seguida, começaram a protagonizar filmes com elevados índices de bilheteria. Essas mudanças crescentes na mesma direção e sentido pelo menos parecem prenúncios de transformações no ordenamento das relações sociais. Contudo, torna-se imprescindível a atuação de numerosos indivíduos conscientes para que elas se orientem para o progresso, e não para o retrocesso.
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