Parece pleonástica a expressão diálogo educativo. Pois, todo diálogo verdadeiro é educativo. Mesmo assim, toma-se aqui a expressão para uma ficção cujo objetivo consiste em ilustrar o magistral processo de ensino empregado por Sócrates(470-399ACN) de Atenas para promover a aprendizagem de Platão(428-347 ACN) de Atenas, Xenofonte(431-350) da Ática, Alcibíades(450-404) de Atenas, Fédon(417-? ACN) de Elis e de muitos outros. Na ilustração, a letra M indica o mestre e a D os discípulos da escola pedagógica grega.
D – Mestre, o que é o sol?
M – Devolvo a pergunta a vocês: o que é o sol?
D – Ah, evidentemente o sol é o Deus Apolo, que tem seu oráculo em Delfos, onde a pitonisa transmite profecias dele aos mortais. Todos os dias, ele faz o mesmo périplo, com exemplar assiduidade, em suntuosa quadriga puxada por fogosos cavalos: surge no leste, das espumas de Afrodite, no mar Egeu, percorre o firmamento e desaparece no oeste, mergulhando nas espumas de Afrodite, no mar Jônico.
M – Por favor, olhem o céu, contemplem o sol e façam a bondade de mostrar-me Apolo, a quadriga e os cavalos.
D – Não estamos conseguindo vê-los, apesar de nossas insistentes tentativas...
M – E como concluíram vocês sobre Apolo e a quadriga?
D – Ora, foram nossos pais e os fervorosos devotos da divindade que nos asseveraram.
M – Então, sugiro uma interrupção de nosso diálogo para que vocês os consultem sobre como devem proceder para ver o deus, a carruagem e os cavalos.
Obviamente, pais e fervorosos devotos responderam jamais haverem visto pessoalmente Apolo, quadriga e cavalos, neles acreditando por causa dos sábios ensinamentos dos sacerdotes e pitonisa, a quem faziam generosas dádivas. Os discípulos, então, procuraram sacerdotes e pitonisa, porém as instruções prescritas por uns e outra foram ineficazes para o procurado aparecimento celestial e divino. Os discípulos retornaram, então, ao mestre para dar prosseguimento às atividades discentes.
M – Saudações, rapazes! Conseguiram, enfim, vislumbrar Apolo no hemisfério celeste?
D – Lamentavelmente, não! Redondamente baldadas foram nossas curiosas pesquisas. Inoperante e inútil foi o recurso aos pais, piedosos devotos, aos próprios sacerdotes e à pitonisa.
Confessamos agora ignorar o que seja o sol...
M – Não sejam, portanto, pessimistas. Pois, sábios revelam-se aqueles que sabem que não sabem quando realmente não sabem. O burro que já sabe que é burro sabe mais do que o outro que ainda continua pensando ser um cavalo. Por conseguinte, merecem meus efusivos parabéns. Concluída assim a primeira parte irônica da educação, passemos agora à segunda parte maiêutica. Contemplem novamente o sol e respondam por si mesmos as seguintes perguntas.
D – Com muito prazer, mestre!
M – O sol é um corpo aquático, celeste ou terrestre.
D – Evidentemente celeste, pois não é peixe para viver na água, minhoca ou tatu para sobreviver dentro do solo.
M – O sol é triangular, quadrado, hexagonal ou redondo?
D – Indiscutivelmente redondo.
M – O sol é luminoso, transparente ou opaco?
D – Inegavelmente luminoso.
M – É quente ou frio?
D – Quente. A quem disto duvidar basta sair da sombra, ao meio-dia, no verão.
M – O sol é azul, verde, amarelo ou roxo?
D – Amarelo como o ouro nativo das pepitas.
M – Agrupem agora as respostas apresentando uma definição preliminar do sol.
D – O sol é um corpo celeste, um astro redondo, amarelo, luminoso e quente.
M – Muito bem!
Depois de tantos séculos, na maioria das escolas ainda prevalece a comunicação vertical,
unidirecional, de cima para baixo, autoritária, no lugar da socrática, dialógica, circular e compartilhada. Talvez porque esta trouxe o colapso da religião oficializada, a morte de Sócrates e os germens de verdadeira transformação social.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
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2 comentários:
Bom Dia Luizito, tudo bem?
Quero informar que publiquei dois textos seus em meu blog, mas indiquei seu nome como autor e coloquei o link para o seu blog também. Seus textos são FANTÁSTICOS. Adoro todos.
Você aceita ser moderador do meu blog > Relaxe Y Blog Brasil! < ? Sou estudante de jornalismo e repórter em duas agências aqui em São Paulo. Acho que seria muito interessante e importante para o meu blog e para o meu aprendizado vê-lo publicar esses textos fantásticos em meu blog. Caso você aceite, ´poderiamos fazer um diálogo. O novo e "inexperiente" ( EU) e o experiente (VOCÊ).
Se você aceitar, gostaria que enviasse um comentário pra mim com seu e-mail.
Um grande abraço e sucesso!
Att: Agustín Carvalho
Sensacional professor!
Realmente é um texto bastante demonstrativo daquilo que é a educação hoje e do que ela foi nos tempos antigos, acho interessante retomar esse tipo de discussão mesmo nos tempos modernos.
Assim que tiver mais tempo irei apreciar outros textos com a devida atenção!
Abraços,
Ricardo Freitas
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